~~~ Beirão na Diáspora ~~
~~~~~~ Carta aberta a Portugal ~~~~~~
< Emigração, uma viagem com regresso ? > Querido Portugal. Aqui estou a escreverte passadas quase 3 decadas de te ter deixado, (29/Outubro/73. Passados todos estes anos, ainda guardo vivas as memórias de tudo o que deixei para traz e que fui revivendo durante as 8 visitas que te fiz desde que parti. Parti ainda relativamente jovem, 33 anos e já estou na terceira idade. Parti com a ideia de voltar, passados que fossem meia duzia de anos, depois de amealhar dinheiro suficiente para a compra de um apartamento/habitação na area da grande Lisboa, a pensar na educação e futuro dos filhos. Depois de alcançado esse sonho, o automovel de aluguer de que era proprietário na aldeia e mais o pequeno estabelecimento de mercearia e café, seriam o suficiente para irmos sobrevivendo! Esta era a minha ideia. Como sabes Portugal, desde o princípio da decada de 1960, a emigração para a Europa, França principalmente, era uma constante da vida, de muitas famílias do” interior”, foi o começar dum êxodo que fez mudar a vida de todas as aldeias da minha Beira, assim como de muitas outras do nosso país. Já no início da década de 1970, com a economia das pequenas aldeias e não só, a depender quase totalmente da emigração, começava tambem a fervilhar em mim a ideia de partir. Os serviços do automóvel de aluguer começavam já a não serem tão necessários, pois esses que emigraram começaram tambem a poder possuir um automøvel, assim o futuro de sobreviver na aldeia ia-se desvanacendo pouco a pouco, onde a emigração provocou o abandono quase total das mesmas. Não fora ainda os serviços para o estrangeiro a que eu e muitos do ramo se aventuraram e a vida seria muito mais difícil. Afora tambem os meses de verão, com esse ciclo de romeiros da emigração, a monotonia era já uma constante nestas paragens da Beira Interior. Dir-se ia que o tempo tinha parado. Entretanto com o nascimento da primeira filha, abreviou-se em mim a ideia de tomar uma decisão, até porque a idade ia avançando. Tinha que tomar uma resolução! Ficar, ou partir. Tomei a decisão de partir tambem, com a tal ideia de amealhar alguns meios para a compra da tal sonhada habitação na grande cidade. Parti, como milhares e milhares desses irmãos , filhos da mesma Pátria, que se iam espalhando por todos os lugares do mundo. -Nota interessante: todos partiamos com a ideia de voltar e… até hoje ainda não encontrei nenhum que tivesse partido com ideia diferente. Porem a realidade e as circunstancias da vida tornaram-na diferente, nomeadamente para aqueles que partiram para destinos transoceanicos. Estes factores são mais complexos e não são matéria para te os explicar nesta carta,, meu Portugal , isso ocuparia umas tantas páginas e o meu objectivo agora é apenas o de te responder á pergunta que me foi posta: <emigração, viagem com regresso? > Para mim a emigração já não era condição totalmente estranha. No meu caso tinha mais opções, pois como fazia viagens quase semanalmente no transporte de outros com o mesmo destino, para a Europa: como França, Alemanha, Suiça e Luxemburgo, para onde fiz estas viagens durante uma duzia de anos para sobreviver, tinha uma ideia melhor do que era emigrar. E depois de tantos ter levado...tinha chegado tambem a minha vez de partirlhar o mesmo destino, o que me levou até ás costas do Pacífico no Canadá, à cidade de Vancouver onde tinha uma irmã e ainda resido . Aqui recomecei a minha nova vida, sempre na tal ideia de voltar ao fim de alguns anos. Porem essa ideia foi-se desvanecendo com o passar do tempo, a forma de pensar foi-se modificando. A prioridade da habitação em Portugal, foi protelada ao fim de dois anos pela compra aqui da nossa primeira habitação e com ela o fortalecimento das raízes em terra estranha. Entretanto a nossa unica filha, chegada aqui com apenas três anos de idade, começava a assimilar a nova lingua com mais facilidade do que nós proprios, apesar da aprendizagem na escola,( nocturna); o nosso jardim familiar foi assim ganhando raízes ao ponto de ser difícil, ao fim demais de três décadas, transplantar essas mesmas raízes para outro sólo! As arvores que nele crescem iriam sofrer um traumatismo arriscado para a transplantação. De vês em quando vou-te visitando, meu Portugal, para reavivar as memórias do que deixei para traz, embora muito do que deixei já não exista: como os meus progenitors, família, vizinhos, amigos, enfim…um rol de coisas e pessoas que cá longe por veses, ainda penso existirem. Passado todo este tempo muitas coisas mudaram em ti… felizmente para melhor. Passas-te de país de emigrantes, para país de emigração, as tuas infra-estruturas melhoraram bastante e em muitos aspectos, és um Portugal diferente do que deixei e ainda bem! Quero aqui dizer-te que, ainda me lembro…da primeira visita que te fiz, (seis anos desde que parti) no já distante Verão de 1979. Ao sobrevoar as tuas terras ao longo da costa Atlantica, vindo de Londres, da ligação com o Canadá, “ainda me lembro”a emoção que sentimos, eu e minha esposa, ao vermos-te a nossos pés naquela manhã de sol português com todas aquelas pequenas povoações rodeadas por caminhos ziguezagueando pelas encostas, com o Atlantico ali perto com as suas praias douradas e as ondas a esbaterem-se na sua areia fina, “ainda me lembro” Portugal, da emoção dessa primeira visita e a expectativa de ver a famíla e amigos. Sim…essa emoção foi de mais para nós e quando o avião se preparava para aterragem no aeroporto da “Portela” ao vermos ainda aquelas habitaçoões degradadas, (felizmente que já não existem) e aquele panasco seco ao redor das pistas de aterragem, olhamos um para o outro e os nossos olhos encheram-se de lagrimas como que duas crianças. A emoção era mais forte, “ainda me lembro”… e nunca me esquecerei desses momentos. Agora que me perguntas, ”se foi uma viagem com regresso?” tenho a dizer-te com mágoa e novamente com as lágrimas a aparecerem… que não. Foi uma viagem sem regresso… pelo menos permanente. Prometo-te que te visitarei enquanto poder, mas não posso abandonar as arvores do meu jardim ; elas foram a razão da minha partida e quero acabar os meus dias junto delas, pois já existem outros rebentos de tenra idade que necessitam do meu carinho e cuidados e que mais me prendem ainda a este meu jardim. E antes de acabar meu Portugal, queria aqui desabafar contigo, que a tua atitude tambem mudou um bocadinho em relação aqueles que emigraram. Eu noto-a quando te visito. Se voltasse, aí seria apelidado de, <emigrante > enquanto aqui sou classificado como Europeu (caucásio.) Mas isto pouco importa, continuo a amar-te como dantes. Por agora é tudo. Para ti Portugal ! Um abraço do teu tamanho e… até sempre. Belarmino Duarte Batista Vancouver – Canadá - Julho- 2002
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