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~~~ < O Salto > ~~~

~~~~ França… era a aventura ~~~~

~~~ Emigração Portuguesa nas Décadas de 1960/70 ~~~

 

~~~~~~Introdução  ~~~~~~

 

Estes apontamentos foram escritos por Belarmino Duarte Batista

 em Vancouver, Canadá.  

A minha profissão antes de emigrar para o Canadá era a de motorista de praça, proprietário do automovel de aluguer da minha aldeia, Peso-Covilhã.

Mesmo antes de emigrar, tive sempre na ideia de escrever alguns apontamentos desta minha vida, sobre este tempo de mudança na vida de milhares de pessoas do nosso país, principalmente das localidades do meio rural.

Assim chegado a este país, passados dois anos, comecei a fazer apontamentos em papeis, de tudo o que tinha na memoria ainda vívida, do que foram esses 12 anos de vida a caminho da Europa, no trasnporte de emigrantes.

E fi-lo mais depressa, porque um problema de saude na altura, fez-me pensar diferente e abreviar esta minha ideia. Portanto tudo o que escrevi foi feito debaixo de bastante “stress” e assim pouco a pouco, dia após dia fui tomando anotações para este meu projecto.

Ainda que não sirva senão para minha recordação ele é um depoimento verídico duma época que  teve grande repercussão e mudou o nosso país.  

Não o fiz com o intuito de obter qualquer benefício, mas sim porque achei esse tempo fascinante; talvêz  devido ao meu envolvimento neste acontecimento migratório.  Eles foram começados a escrever no verão de 1976, e levaram me alguns meses a  escrever, aos poucos; quando tinha disposição para isso. 

Alguns acontecimentos foram adicionados mais tarde á medida que deles tinha conhecimento, mas a essência reflete a década de 1960/70. Portanto todas as referências aqui mencionadas,  são uma apreciação aos factos relativos atè essa data, ou para bem  dizer até 1973, ano em que cessei o meu contacto com a emigração portuguesa para a Europa.

É evidente que a situação, à data presente é diferente em muitos aspectos, da de 1960 / 70,  por isso este facto tem que ser tido em consideração. 

Este escrito foi a reflexão expontânea dos factos e acontecimentos, que eu tinha em minha mente.  Eles são a essência, daquilo a que eu tive conhecimento, da vida que se vivia pelas Beiras e Interior do paìs, principalmente.

Poderiam estes apontamentos ser expandidos muito mais e aumentar consideravelmente o numero de paginas com matéria relativa ao mesmo; mas não foi essa a minha intenção.

 A ideia foi simplesmente de transpôr para o papel aquilo de que tive conhecimento, de que fui testemunho e que foi contactado por mim. 

Tenho igualmente escrito alguns apontamentos de viagens, que procuro dar uma ideia mais em pormenor do que eram essas viagens, no transporte de emigrantes para a Europa.

Não posso recordar-me em pormenor de muitos factos, como nomes de pessoas, de localidades, de datas, etc, mas faço o possivel para ser fiel à minha memoria e descrever o que era a vida dos motoristas de praça e emigrantes a caminho da França e Europa, no seu dia a dia.

                                                                         ~~~ Emigração Rural~~~

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                                                                           ~~~ A Minha Aldeia~~~

Este escrito tem por finalidade dar a conhecer  as circunstancias que levaram a emigração maciça dos habitantes das aldeias do Portugal rural.

Esta é uma homenagem minha aos emigrantes da França, pois foi com eles que passei esta minha experiência e foi a pensar neles, que este apontamento foi feito.

Ao mencionar no titulo a minha aldeia que è igual a tantas outras, de seu nome, Peso do concelho da Covilha com à volta de 1,000 habitantes, situada na margem direita do Rio Zêzere, faço-o por ter uma ideia mais precisa das condições de vida em que então se vivia.

Aldeia essêncialmente agricola, embora ligada um tanto á industria de lanifícios

devido à proximidade da Covilhã e Tortosendo, os seus habitantes, assim como os de inumeras aldeias por esse país fora,  não deixaram passar a oportunidade que lhes oferecia a verdadeira Europa, já que a Peninsula Ibérica à altura, era como um canto remoto da mesma.

Os factos e referências, creio identificarem-se sensivelmente a todas as outras do nosso país.  Assim explico o título que escolhi para começar este apontamento.                                     

   

 

  ~~~ Capítulo I  ~~~

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~~~ As Causas da Partida ~~~

Corria a década de 1950/60; nesta Pátria ao longo do Oceano Atlantico, no país mais ocidental do continente Europeo, vivia -se  em  relação ao mesmo 30, 40 ou 50 (?) anos atrasado. Vivia -se do que se tinha !

Nas poucas grandes urbes, ia-se vendo qualquer coisa de novo, como novos edificios, arruamentos com novas urbanizações, alguns milagres da técnica que vinham de <fora>, tais como automoveis, radios transistores e por ultimo a televisão, etc.  Mas nestas Beiras do interior, no norte Transmontano e Alentejo, vivia-se num mundo  qualquer coisa como nos tempos mediévais.  A propria aparência destes povoados assim o demonstrava.

Vivia-se na escuridão, apenas quebrada pelos raios de luz do  virginal azeite.  Informação !…  Cultura !…  Como ?

As proprias ondas da então Emissora Nacional, chegavam atrofiadas, (não havia os emissores  regionais) onde havia electricidade e as numerosas povoações rurais do interior não a tinham.

Jornais ? Impossivel ! Quem sabe ler ? E  hàbitos de leitura ? E dinheiro para a mesma ?  Vivia-se do que a terra dava  e nada mais.  Cultivava-se a  terra para se sobreviver.

Nestas Beiras do interior assim como todo o Norte, salvo algumas pequenas  excépções, não existe a generalização da grande propriedade assim quase todas as pessoas possuiam  um pouco de terra, herança dos seus antepassados.  Terra que não dà para nada, mas que chega  para  se entreterem plantando umas couves, semeando umas batatas, feijão, milho, etc.

 Assim bocadito aqui, bocadito ali, disperssos uns dos outros por alguns kms de distãncia, assim ia mourejando  este povo das provincias interiores ocupando-se toda a familia, mulher e filhos, numa azáfama para arranjar qualquer coisa com que  entreter o estômago ao longo  do ano.                             

Assim se criava um porco, se tinha uma cábra para se não comerem só legumes e cereais.  Tambem haviam umas oliveiras para darem uns  litros  de azeite que eram poupados para darem para todo o ano.

O chefe de familia de vêz em quando dava uns dias de ajuda ao <senhores>  da terra que tinham mais uns predios e assim  poder  arranjar alguns escudos para fazer face a alguma despesa imprevista que aparecesse ou a  uma doênça.

Só compravam o jornal a Sra. Professora e algum comerciante, não todos, mas só quando iam à “Vila,”  nome dado à cidade da Covilhã, sede do concelho.

O Pàroco tambem o recebia, das autoridades eclesiásticas.  E era tudo. 

Ambições ?  Quem as poderia ter ?   Que futuro ?    Assistência  Médica ?   Quando alguem adoecia ?

Um burro bem aparelhado, com cobertor a tapar misérias, doente em cima do animal, outra pessoa guiando o mesmo (porque aqueles caminhos eram diferentes dos que o animal percorria todos os dias  e  jà conhecia de olhos fechados) e assim se alcançava o Médico a uma dezena de kilometros de distãncia, depois de 2 ou mais horas de caminho à mercê dos caprichos climatéricos.

Ou então esperava-se  pelo Sr. Doutor (se as circunstancias do doente o permitissem)  que  visitava as povoações mais ou menos semanalmente, trabalhando em cima de uma mesa, dando ingeções e observando os doentes à luz da candeia.  Mas esta regalia nem todas as povoações a tinham.

A minha aldeia tinha-a graças ao serviço do médico duma aldeia vizinha, do Paul, que visitava as aldeias proximas usando o seguinte sistema.

A esse doutor pagavam as gentes da aldeia uma tença de armonia com o agregado familiar, por exemplo um alqueire (20 litros)de milho, ou de azeite (12 litros) por ano para beneficiarem dos seus serviços.Tal como nos tempos medievais.  Assim se vivia do que havia. A maioria das pessoas usavam os productos da terra, como forma de pagamento. De uns tantos em tantos anos, (pelas eleições) apareciam uns <Senhores da Vila> que vinham até ás aldeias e a quem faziam umas grandes festas, mostrando-se-lhes o melhor que havia (?).

Ocultando-se-lhes o pior; casas em ruinas, mas habitadas, onde se criavam familias nas piores condições sanitárias, ruas com estrumadas, que sem as mesmas eram intransitáveis no inverno e em que o estrume era necessario para a lavoura, pois para adubo químico não havia dinheiro, nem por vezes tão pouco quem o vendesse.  Era nesta altura tambem que a rua principal era varrida.

Depois da visita desses <Senhores> ficavam algumas iluzões!!!

As pessoas à noite, reunidas na taberna à luz do petroleo ou do gazómetro, vaticinavam: Será desta que arranjam a rua ?

Que vem a electricidade ?    Esgotos ?…  Isso era fino de mais para falarem  em semelhante coisa.

Passado algum tempo era enviada para o Sr. Presidente da Junta, uma brilhante placa de mármore, com o nome de um desses <Senhores> para ser colocada no largo principal da povoação, que ficaria a ter o seu nome.            

E era tudo.  Melhoramentos ?  Talvez para a proxima, diziam as pessoas.

Nestes largos normalmente existia um chafariz que fornecia   àgua à povoação e um tanque onde os animais iam beber, mas que infelizmente, na maioria dos casos, só dáva àgua no Inverno e pouco mais.

No Verão, quando ela era mais precisa, não chegava lá, ou era em tão pouca quantidade que as pessoas tinham que passar horas e horas e por vezes a noite, para conseguir uma vasilha ou duas do precioso lìquido.

Esse largo mais parecia uma feira de vasilhas de toda a espécie, ou uma multidão no deserto à espera do maná.

Aquele pequenino e precioso caudal de àgua, era disputado por todos com o rigor da sobrevivencia.                                                     Alteravam-se os ânimos, as mulheres discutiam e os cântaros de barro partian-se, ou os de chapa amachucavam-se, alvoraçava-se a povoção com o barulho da discussão.

Havia gargalhada com fartura pelos que presenciavam em redor; um espectáculo triste, mas que era o unico a que se podia assistir nestas aldeias. 

Assim se passava o tempo e se perdiam noites para se conseguirem  uns míseros litros do precioso lìquido.  Infelizmente esta situação ainda hoje se mantem em muitas povoações, embora com menos aquidade do que antigamente.

Entretanto as pessoas iam contemplando a brilhante <placa> ali mandada colocar mesmo por cima do chafariz, pelo Presidente da Junta, homem paciente e conservador, um pacífico cidadão que vivia do seu pequeno estabelecimento e algumas propriedades  que os seus antecessores lhe tinham deixado, ou duma reforma alcançada ao longo de muitos anos de trabalho numa ocupação do Estado, como cantoneiro, Policia, GNR. etc.

Este tipo de cidadão era o preferido para os cargos oficias nas aldeias. 

Assim se ia vivendo nestes pequenos povoados, e tantos hà, nestas outrora terras de Viriato.  Este era o panorama geral do país rural, das pequenas aldeias, mais propriamente do <interior>.

Entretanto no início da década de 1950, começavam a aparecer os primeiros edificios de escolas novas, começou-se a expandir mais o ensino primário; nota positiva, embora tardia, desta época. E esta nova geração começava pelo menos a saber ler e escrever, coisa que os nossos pais não sabiam.

Depois de terminados os quatro anos de escolaridade obrigatoria, onde se aprendiam os basicos ensinamentos do ler e escrever (os unicos que adquiri e possuo oficialmente) por vezes graças ao brio profissional de alguns professores/as, dentro de limitadas condições, sem material pedagógico proprio e adequado e sobrecarregados com alunos de diferentes classes, assim apareceu a nova geração dessa época (na qual me incluo) disposta a tentar viver uma vida mais digna.   Mas que fazer ?   Dores de cabeça para os pais.          

A vida na aldeia não dá futuro; ficar-se ali seria ficarmos condenados ao mesmo marasmo em que viviam os nossos pais.              

Tal como eu, que entretanto tinha saído da escola com a instrução primària, só havia um caminho a seguir: Deixar a aldeia e tentar a vida na cidade, optando-se na maioria dos casos pela grande Lisboa.

Outras cidades da provincia, proximas da nossa terra de origem, eram tentadas mas, como maior ponto de atração era a grande Lisboa.

Mas como lançar uma criança da aldeia, na cidade, onde não se conhece nada ou quase ninguem ?

Era problema de dificil solução para esses pais que desejavam proporcionar um futuro melhor para os filhos.

Um familiar ou parente ou amigo, (quem os tinha!) era contactado na capital, para onde era enviada a criança com os seus doze ou treze anos de idade acompanhada de alguns productos agricolas , um saco de batatas ! um garrafão de azeite! sei lá! Qualquer coisa  do que havia na aldeia e se podia dispôr.

Que mais  poderiam dar estes aldeões ?     Chegados à cidade, que fazer ?

Marçano; empregado numa taberna ; carvoaria, etc.

Aí se comia e dormia e se amealhavam alguns poucos escudos, que mal davam para o vestuario, trabalhando desde as 6 da manhã até as11... meia noite, sem dias de folga, sempre no mesmo ambiente de taberna, houvindo o relato do futebol aos domingos para quebrar a monotonia, enquanto se serviam os copos de <três>, coisa que para nós crianças duma aldeia onde não havia electricidade, era jà um passatempo, o ùnico que nos era proporcionado... ouvir o relato da bola.

Quando recebiamos carta dos nossos pais, nós crianças ainda a necessitar do carinho da nossa mãe, os nossos olhos enchião-se de lagrimas lembrando a pequena aldeia onde fomos criados atè então e tinhamos os nossos amigos, as nossas recordações de infancia e os que nos eram queridos.

Assim, pobres crianças enfrentava-mos cêdo o drama da imigração e a separação dos <nossos>.                          

Ali  não encontravamos a palavra meiga da nossa mãe ou o sorrizo inocente e belo dum pequenino irmão, que deixámos no berço e com quem  brincavamos ainda, nem as carícias ternas dos nossos avós.

Ali encontravamos sim as palavras ásperas dum patrão que as seis da manhã nos acordava pondo-nos o corpo a descoberto, dizendo: vamos là levantar rapaz ! que são horas!…

Assim se passavam os primeiros anos da nossa mocidade.

Assim convinha aos proprietarios  destes estabelecimentos que encontravam mão de obra barata e que alguns, faziam destes pobres moços quase uns escravos; e digo quase porque, a escravidão não era praticada oficialmente.

Na aldeia, quantas vezes os nossos pais eram explorados no mesmo sistema, pelos <senhores> das grandes  propriedades.

Assim se vivia e embora com dificuldades, muitos iam deixando as aldeias  em busca de uma vida mais digna , nas grandes cidades.

Ai se formavam os chamados “ Bairros da Lata”, verdadeira miséria, onde os pobres aldeões iam viver…em piores condições do que por vezes na sua propria aldeia.

Porem havia trabalho e algum dinheiro e a possibilidade de conseguir um futuro melhor para os filhos. Havia a esperança  de um dia conquistar uma vida melhor e abandonar aquele Bairro da Lata. Quando?  Talvês nunca!...

Mas havia a esperança!… 

Muitos outros tinham vindo e conseguiram alguma coisa.

Não hà que desanimár.   Assim diziam e faziam.                              

Por todas estas condições sócio- econòmicas em que viviam e se arrastavam por gerações e gerações, os Portugueses mais desfavorecidos procuravam longe da terra e da Patria que os viu nascer, uma vida  mais digna para eles e para os seus.

Assim o emigrante português se espalhou por todo o mundo, encontrando-se presentemente em todos os continentes; nas longinquas Australia, Asia, Americas, do Norte e Sul, Africa e aqui às portas… na Europa.

São dois milhoes e quinhentos mil aproximadamente, segundo dizem as estatísticas, uma verdadeira nação fora da Patria-mãe, mas que não esquecem  a pequenina aldeia que lhes serviu de bêrço, nem o Portugal donde são oriundos, que desde o seculo XV se habituou a vêr partir os seus filhos embalados na aventura.

É uma uma realidade  que o Portugal Ibérico por vezes não se tem dado conta.                                               

Felizmente que os ultimos governantes já estão a reconhecer esta realidade e têm no Presidente da Republica, General Ramalho Eanes um  grande percurssor.

E, a provà-lo  estão uma série de medidas tomadas recentemente, como a expansão do ensino de português aos filhos dos emigrantes, subsídios para o efeito a Associações de emigrantes, programas de Radio e Televisão, filmes etc. alem de facilidades sobre a importação de bens e outras vantagens.        

Tudo isto se tem vindo a acentuar ultimamente, dando provas de que a grande família emigrante portuguesa, não foi esquecida e começa a ser considerada.

O contacto  entre as coisas da Mãe-Patria e as comunidades  emigrantes espalhadas pelo mundo, começa a sentir-se mais e a ser mais frequente.        

Ainda recentemente, em Outubro de 1978 quando da visita  do navio escola <Sagres> a Vancouver-Canada, cidade onde resido, ao conversar com um dos marinheiros a bordo, ele fez esta afirmação; <Quando partimos de Lisboa, o Senhor Presidente da Republica, General Ramalho Eanes esteve a bordo a despedir-se da guarnição e disse que levasse-mos uma saudação para todos os portugueses ausentes, nas terras que visitasse-mos>

E assim foi Senhor Presidente da Republica, tenha a certeza de que a =Sagres= e a sua tripulação foi uma saudação viva, do nosso País, que muitos, tal como aqui nestas costas do Pacífico nunca tiveram oportunidade de vêr por estas paragens. Foi um testemunho vivo  do nosso passado glorioso de marinheiros que nos visitou  e deixou saudades até ás lagrimas  em muitos filhos de Portugal.

São estes e outros factos que cà longe, nos sensibilizam e nos prendem mais à Patria-Mãe e fazem com que nos sintamos orgulhosos de pertencer à Patria de  Camões.

                                                                                                                         ~~~  Capítulo II  ~~~

                                                                                  ========================

                                                                                          A Odisseia da Partida                     

 

 

Entretanto a Europa para lá dos Pirineus, aquela que foi desmantelada e sofreu no corpo e na alma as atrocidades nazis da II Grande Guerra, começava a erguer-se a caminho do progresso, já recomposta da écatombe que tinha  sofrido, sem que nós, país para cá dos Pirineus, (e sempre com os olhos postos no continente africano devido às possessões ultramarinas,) nos apercebece-mos desta caminhada para o desenvolvimento.

E eis que alguem descobre essa Europa !. Essa era a salvação...já não era Lisboa, mas sim mais longe;  longe... diferente na lingua e nos costumes.

FRANÇA...FRANÇA era a palavra mágica… era a aventura .

E aqui começa um <êxodo> quase colectivo, principalmente das aldeias e pequenas vilas rurais, de milhares e milhares; um drama que até hoje infelizmente ainda ninguem com conhecimento directo dos factos, teve a disposição de transcrever para a posteridade, para que as gerações vindouras, filhos desses emigrantes da aventura, tenham conhecimento deste êxodo de fuga á miséria.

Drama esse que só os proprios emigrantes poderão descrever com os seus depoimentos,  aqueles que felizmente não ficaram pelo caminho da aventura em acidentes nas estradas,  nos trabalhos ou simplesmente cumpriram o seu circulo natural da vida. E é pena; pois esta época mudou totalmente a façe da grande maioria das pequenas  e médias povoações do nosso Portugal e podemos afirmar, acordou o povo português do sonho ilusívo e do marásmo em que vivia.            

A partir daqui os contactos com um mundo diferente, vieram trazer novos ensinamentos  e nova visão  da forma de viver  a estes pobres aldeões. Foi o princípio do despertar.                                                                                  

E para se procurar ganhar o pão de cada dia e uma vida mais digna para si e para os seus , ou fugir as guerras ultramarinas  na Guiné, Angola ou Moçambique, o passar  as fronteiras destes dois países da Peninsula Ibérica é quase o mesmo que passar a cortina de ferro de Berlim.

Esta é  para mim a pior época do regime de Salazar, aquela que se contrasta mais  a si propria;  “inimigo acérrimo do comunismo, pratica-o com o mesmo rigor com que o condena”, tentando manter o povo afastado das realidades pela deturpação das noticias e a privação do livre contacto humano com outros povos.  

Assim o poder sair livremente deste Portugal não era para todos, mas sim só para alguns. Aos protegidos do regime convinha haver desemprego, que originava mão de obra barata e á disposição, por isso a política era a de dificultar e mesmo impedir  a todo o custo, a saída dessas fontes de mão de obra que eram o povo; esse povo da provincia e aldeias, que lhe proporcionava uma grande disponibilidade de recurssos humanos a longo prazo para quando o necessitassem. Assim se vivia neste país que era só de alguns e em que Portugal era só Lisboa e pouco mais … o resto era paisagem, como então se dizia.                                             

Porem a estratégia não surtiu os efeitos desejados e lentamente...este povo heróico, pela calada  da noite, misturado e tratado como animais, se necessário, ia-se escapando ... dando o <salto>, ainda que com grandes riscos físicos e materiais . Mas nada mais havia a fazer ... hesitar, era perder a carruagem da Europa e eles não hesitaram. Milhares e milhares, de todos os cantos  e aldeias desta Patria à beira mar adormecida, tomaram a grande carruagem  da Europa e  nada os assustou. Não o tivessem eles feito e o que seria hoje  o nosso Portugal. A ansia de procurar melhores condições de vida era grande e por isso, dar o <salto> era uma facêta do dia a dia, ou melhor, noite a noite.

A estes heróicos aventureiros nada os  assustava e assim se aventuraram eles a atravessar esta cortina de opressão, fugindo  às escondidas pela calada da noite, como se o desejar trabalho para angariar pão para os filhos, fosse um crime! mas era-o, infelizmente. E muita sorte teriam  se não aparecesse uma patrulha traiçoeira que os metesse nas grades da prisão ainda dentro da  propria  Patria.

Patria a que por vezes se tomava raiva e odeava nos momentos difíceis, como se essa Patria fosse a culpada…mas outro sim, alguns que dela faziam parte e nela impunham as suas leis.  Mas estes recentimentos eram momentâneos ; ocasionais reflexos da situação em  que então se vivia, porque no fundo, lá estava o amor a tudo o que o viu nascer e por conseguinte à  propria Patria.

E a prová-lo esta a nova habitação que anos depois constroi na sua aldeia.    Este drama da emigração começa a sê-lo, logo no inicio da partida.

É uma odisseia que é difícil a um quase iliterado como eu, transcrevê-la para o papel, mas que tento dar uma achêga dentro das minhas possibilidades, porque a vivi noite e dia assistindo durante anos e anos a esta sangria humana , vendo partir irmãos, familiares  e amigos  que deixavam as aldeias quase desertas... até que chegou tambem a minha vez. Porem a minha ocupação, motorista de praça, assim o permitia; verificar e sentir ainda mais esta sangria humana .                                                                                                                                    

 

                                                                                               ~~~ A Preparação do  Salto ~~~

Ajustado com alguem dentro da complexa maquina do<salto>(assim se chamava a abalada clandestina) o preço monetario a pagar, na altura em média 10.000$00, porque o resto poderia custar muito mais.  Mas o candidato sabia-o e não hesitava, a decisão de abalar era profícua… não havia outro caminho a seguir.                      

Assim alguma roupa preparada, só o indispensável e alguma coisa para comer, assim partiam dezenas e centenas,  pelo silêncio da noite; desapareciam como por encanto e quando os filhos  mais novos acordavam e procuravam pelo pai ou irmãos (mais velhos) que tambem tinham partido, a mãe de lágrimas nos olhos e coração desfeito, dava-lhes qualquer desculpa !…                                    

Que tinham ido aqui ou ali, pois as crianças dormindo não deram conta dos beijos misturados com lágrimas que o pai lhes tinha dado no silêncio da noite.

E assim  partiam da terra que os viu nascer deixando para traz a melhor fortuna que tinham…mulher, filhos e familia.            

Introduzidos em territorio espanhol durante a noite em determinado ponto da fronteira, eram escondidos nos montes, nos estábulos dos animais de onde eram carregados e misturados com os mesmos, em camiões proprios para o efeito, “proprios para o transporte de gado”e assim faziam  a travessia de toda a Espanha. Os homens encarregados deste transporte chamavam a estes, <borregos> e rotulados como tal assim eram transportados para evitarem as autoridades espanholas. Borregos era o nome de código utilizado para se referirem aos emigrantes clandestinos.

Estas viagens levavam alguns dias e por vezes até mais de uma semana, consoante as dificuldades ou facilidades que se deparavam, muitos factores e  pormenores tinham que ser conhecidose ponderados o que por vezes obrigava a atrasos. Uma vez chegados ao destino desta segunda etapa da viagem, proximo da fronteira Francesa eram novamente descarregados junto com os animais para outro lugar onde aguardavam as ordens dos <passadores>.                                                    

Desde que entravam em Espanha  eram  espanhois que se entregavam das  operações, embora seguidos a distancia por compatriotas nossos, angariadores dos mesmos.

Nova noite, nova aventura que seria a final etape para o escape alem Pirineus.                                                 

Era a travessia  destas montanhas rudes e rochosas tantas vezes geladas e cobertas de neve, que normalmente eram transportas  a pé pela escura noite, que eram mais temidas, pois historias se contavam e muitas verídicas, de que  os que se recuzassem ou arrependessem da travessia ou por qualquer motivo sofressem qualquer acidente que os impossibilitasse de se moverem pelos seus proprios meios, eram mortos a tiro ou abandonados  na montanha. 

Verdadeiras ou não estas afirmações, elas constavam por estas aldeias da Beira. E quantos corpos de compatriotas nossos não foram encontrados nestas montanhas ou desapareceram ?

Seria necessário entrar em muitos e detalhados pormenores e averiguações para se constar quantos foram, mas…foram alguns.

E todos os que passaram por estas andanças o sabemos.                                    

Este factor atormentava muitos dos que seguiam a aventura, se seriam ou não forçados a seguir a rota a pé, pelos Pirineus, mas não havia garantia, pois eles nunca sabiam qual a modalidade escolhida pelos <passadores>.

Muitas outras modalidades havia, que eram usadas conforme as circunstâncias o aconselhassem ou o numero de <borregos> a passar.Uma vez entrados em territorio francês continuavam a não estar seguros. Isto dependia das leis em vigor de acolhimento aos emigrantes em França.

Havia ocasiões  em que eram aceites mesmo indocumentados desde que tivessem a confirmaçao de um lugar certo de trabalho, noutras eram  mesmo postos fora do país, noutras eram  aguardados ou guiados por Portugueses ou Espanhois para os levarem às autoridades francesas as quais lhes davam um salvo-conduto até chegarem ao local de trabalho  que muitas vezes era arranjado préviamente por esses intremediarios a troco de mais uns milhares de escudos ou francos e assim chegavam  ao desejado destino depois de uma aventurosa viagem de fuga à miséria e à guerra colonial em Africa.

Esta fonte de mão de obra barata interessava igualmente aos franceses.

No entanto cada caso tinha o seu pormenor especial e só o cada um que por eles passou o poderá dizer.  Uma vez chegados ao local de trabalho, dura vida os esperava.   As primeiras dificuldades; a lingua , o isolamento a que eram forçados, trabalho duro na agricultura, construção civil ou obras publicas, como pontes, tuneis, estradas, caminhos de ferro, eram os trabalhos que esperavam o emigrante português, explorado ao maximo pelos patrões.    

Assim passavam os primeiros anos, trabalhando horas a mais do que o normal, vivendo nas piores condições em velhos alpendres, carruagens etc, fazendo o proprio comer e lavando a propria roupa.

Assim ajudaram a construir uma grande nação…França.

Tudo isto e muito mais aconteceu aqueles pioneiros que no princípio se aventuraram.       

Ultimamente as condições mudaram e muitos outros foram encontrar melhores condições de vida e a grande ajuda moral dos familiares e  amigos que lá se encontravam.    Aqueles que não seguian nas grandes levas, tentavam  aconselhados por outros, a seguir outros caminhos, como tentar a viagem por conta propria, no comboio, apoiados a distancia por um amigo que já conhecia a estratégia por já a ter passado anteriormente.         

Tomando um automovel de aluguer  distante da povoação, não fosse alguem desconfiar, eram postos em determinado ponto da fronteira, que nós motoristas de praça já conheciamos e não muito longe da estação de caminho de ferro espanhola.  Eram lhe dadas as instruções e indicados o local por onde seguir de forma a aparecerem na estação à hora da chegada do comboio emigrante que vinha de Portugal, < o Sud > assim lhe chamavam, onde se misturavam com os outros passageiros e se rêncontravam com o guia amigo que seguia documentado e os orientava  na tentativa  e lhes adquiria o bilhete para Hendaia, França.

Para se intoduzir em Espanha ia por vezes  disfarcado de trabalhador local, com um sáco ás costas, (pois a mala da roupa era levada pelo amigo) ou de comprador ocasional de artigos para consumo próprio que por norma eram mais baratos no outro lado, Espanha e os povos fronteiriços compravam diariamente, como pão, carne, biscoitos, etc, em pequenas quantidades a que as autoridades fronteiriças não ligavam grande importancia, desde que fossem apenas para consumo próprio.                            

Assim se tentava alcançar a primeira etapa. Mas sempre olhando desconfiado não fosse alguma patrulha fronteiriça descobri-lo e ser apanhado nas malhas da justiça. E quantos de nós, motoristas praça não fomos apanhados, presos e apertados  para não dizer mais, só porque uma patrulha lá longe nos viu largar um homem na estrada, na chamada zona de desconfiança !  Foram muitos e eu o sei perfeitamente apesar de nunca ter sofrido esse precalço.        

Um dos serviços que não cobrando nehum extra, poderia trazer-nos a nós motoristas de praça, grandes  perigos e dissabores… ossos da profissão e da situação em que então se vivia, em que eramos obrigados a colaborar na emigração clandestina, mesmo até involuntariamente.

Assim quando atingido o primeiro objectivo e misturado com a multidão anónima de outros companheiros emigrantes, o guia amigo já munido do bilhete para a fronteira francesa, Hendaya, entregava-o ao companheiro para que podessem seguir viagem até á nova etapa.

Ali em Espanha já não havia o perigo da “Pide” aparecer no comboio, rectificando os passaportes na caça aos clandestinos.                                      

Atingida  a fronteira francesa, esta mais complicada, pois ali já-se falava outra lingua diferente e com a tensão e os nervos a acumularem-se ainda mais, na expectativa de alcançar a terra desejada.        

Ali já não havia a terra árida da fronteira, Vilar Formoso - Fuentes de  Onôro, parecida com aquela que se estava habituado a pisar dia a dia; para transpôr… mas sim o ambiente do progresso francês, o movimento, mais linhas de caminho de ferro, muitos comboios.

Nova estratégia era explicada pelo companheiro amigo.

No recinto da estação era indicada a porta por onde  <passar> para o lado dos revistados, ou indicado o sítio para onde seguir, enfiltrando-se para dentro do comboio que segue a Paris. Mas...olho bem aberto, não vá alguen desconfiar da manobra.

Outras  vezes dada a impossibilidade de tentar na estação de caminho de ferro, os candidatos eram deixados à sorte, para tentarem noutra altura, talvês no dia seguinte. Alguns mais destemidos arriscavam-se pela noite, depois de durante o dia terem explorado o local a atravessar, o sujo rio Bidassoa que faz a divisão entre Irun- Hendaia ( Espanha-França). Todas estas alternativas eram conhecidas e usadas, por quem andava envolvido nestas andanças.

Quando um compatriota estava enrascado, fazia-se o possivel para se desenrascar.

Muitas vezes  se atingia o objectivo, embora com grande sobressalto e tensão nervosa, a tirarem o sono e a vontadede comer, mas noutras aparecia a mão negra do Polícia ou Guarda alfandegário a estragar tudo.

E aqui começa a desiluzão depois de  tantos trabalhos passados e eis o drama de retorno à velha aldeia, de país para país, de prisão para prisão,  até chegar a Portugal. Este processo chegava a levar  uma semana e…mais.

Em Espanha utilisava-se um processo de recambiar os presos  em que estes eram transferidos de cadeia para cadeia, processo este que levava por vezes à volta de duas semanas  para um emigrante clandestino chegar à fronteira portuguesa.

A família lá longe na aldeia, aguarda ansiosa as notícias , mas eis que elas não chegam tão depressa, pois o companheiro que o guiava no <escape> por vezes nada sabia do que poderia ter acontecido ao outro.E  só depois de percorrer todo o comboio e verificar, mais de uma vez,  que o companheiro não aparece, começa a pensar que a tentativa tenha falhado ou o companheiro tenha sido apanhado.

Pensa ele… pois a certeza não a pode ter, não fosse ele tambem meter-se em riscos e estragar a sua propria vida. Assim chegado ao destino envia notícias para a terra, dizendo que o Manuel deve ter tido qualquer azar… e se foi apanhado, deve estar preso em Espanha, mas... tranquiliza-os dizendo, não tenham mêdo pois isto leva o seu tempo. E mais nada se  sabe até que ele chegue às mãos das autoridades portuguesas, dias ou semanas depois.

Sempre fugindo como que procurar o sustento para si e para os seus, fosse um crime. Mas... era-o  para o regime deste Portugal oprimido, pois bastava um simples passaporte turístico, para que se evitassem estes tristes acontecimentos.                          

Chegado novamente à sua pequena aldeia a vergonha e a desiluzão apodera-se por algum tempo deste homem vencido pela pouca sorte, mas não vencido na coragem e determinação de deixar a vida de miséria em que vive ... cerrando os dentes, apesar do dinheiro gasto e de todos os trabalhos que passou, decede-se  a tentar novamente, mas desta vez procurando um  profissional ou <passador> como se chamavam os homens encarregados desta missão, que embora levando dinheiro e muita gente os considerava como desonestos, eu pessoalmente considerava-os como destemidos, homens de grande coragem, que embora actuando por dinheiro e quem é que neste mundo o não faz; e se arriscavam a perder a propria vida ou a pezadas penas de prisão e monetarias, para não falar dos célebres interrogatórios da Pide ou DGS.

E os emigrantes da França que conheciam  as dificuldades e perigos desta vida, saberão bem avaliar isso ... e ao fim e ao cabo acabarão por reconhecer que não foram mal empregados os milhares de escudos dados ao “passador,” pois sem eles era impossivel a muitos compatriotas nossos atingir o que desejavam, para obter uma vida melhor e muitos não estariam hoje na situação desafogada em que se encontram.

Este é um facto que merece ser realçado, por isso aqui o anóto tambem.

Outra via frequentemente utilizada quando se tentava passar um, dois ou tres emigrantes era a do automovel.

Pessoas com alguma experiência nestas viagens e com carro próprio, que poderia ser particular (português)  ou mais frequente de matricula francêsa, que proporcionava mais facilidade e menos desconfiança às autoridades, transportavam-se misturados com com dois ou três passageiros legais, documentados com passaporte, os outros clandestinos que eram previamente introduzidos para lá da fronteira espanhola, em local êrmo, já previamente conhecido; de dia ou de noite, à hora do jantar ou da ciesta... estes pormenores eram muito importantes, conforme as circunstancias o aconselhas-sem.

Depois de os documentados terem passado a fronteira eram os outros  “pescados” e juntos novamente seguiam viagem , que desde que não houvesse nenhum precálço ou acidente em que fosse necessário intervir as autoridades espanholas , normalmente corria sem incómodo.        

Porem atigida a fronteira Espanha - França, enfrentava-se o problema  de se introduzirem naquele país.

Aqui  normalmente entregavam-se os passageiros clandestinos a um motorista de taxi de Irun, que a troco de algumas centenas de pesetas, por conhecimento, ou na hora de ponta, quando os espanhois atravessam a fronteira para irem trabalhar em França, (centenas deles o fazem diariamente) eram introduzidos misturados com os trabalhadores espanhois, que por rotina nem  necessitavam de mostrar identificação, apenas levavam o passaporte à vista.

Este poderia até ser caducado ou doutra pessoa diferente e passaportes caducados arranjavam-se facilmente, o que era necessário era um passaporte. Claro que as autoridades fronteiriças confiavam um pouco nos motoristas de praça de Irun, que faziam aquele tragécto varias vezes ao dia e portanto já conhecidos das autoridades de vigia.                                                  

Com esta modalidade passei eu próprio alguns compatriotas nossos e como muitos outros motoristas de praça conhecedores da situação o faziam.
Havia que aproveitar, embora arriscando.

Nesta altura  em que se praticava esta modalidade, cobrava-se de quatro a seis mil escudos por cada candidato, que só davam um tanto de sinal à partida da sua terra  e pagavam o restante depois, antes da fronteira francêsa, ou pessoa de familia pagava o restante da importancia, na propria terra.

Portanto o risco para o candidato era menor, em termos monetários e físicos.

O maior risco era  do motorista que fazia a operação.

Uma vez em territorio francês eram novamente apanhados pelos companheiros e seguiam o destino, ou eram apresentados às autoridades francêsas de emigração na terra de destino ou na fronteira, aos  quais davam um salvo-conduto por determinado tempo, isto consoante as leis em vigor na época.

Quando esta modalidade se praticava mais,  por alturas de 1970, já as coisas iam correndo mais fácil para os novos candidatos a emigrantes.

A experiencia adquirida por muitos dos emigrados, familiarizados com estas viagens a França, proporcionava maior segurança para os novos emigrantes. Tambem no regime de Marcelo Caetano, embora seguindo as pégadas do seu antecessor, Salazar, já se notava uma maior flexibilidade na concessão de passaportes turísticos, o que facilitava mais a partida, embora com algumas clausulas de responsabilidade; como por exemplo o depósito de certa quantia em dinheiro, normalmente 5.000$00 que os titulares do passaporte perderiam , se não se apresentassem dentro do prazo estabelecido no mesmo, 30 ou 60 dias.

Ou então teriam que arranjar uma pessoa idónea que seria responsavel pelo regresso do titular do passaporte.

Estes factores foram motivo para que a emigração se acentuasse ainda mais, permitindo aos já emigrados  a  chamada dos familiares mais idósos para junto deles, ou simplesmente visita-los.

Permitia tambem que outras pessoas sem grande ideia de emigrar, fossem  experimentar, e muitos ficaram.

Enfim uma forma mais digna de tratar um cidadão, pelo menos já não era necessário fugir como que um ladrão ou criminoso ou misturado com os animais. Seria necessário entrar em detalhados pormenores para se descrever o que os primeiros emigrantes passaram, desde as viagens do “salto” até as condições de trabalho e viver que tiveram que enfrentar.

Vou citar alguns exemplos de que fui testemunho em algumas  das muitas viagens que fiz á Europa, principalmente França, no transporte de emigrantes. Numa delas numa viagem a uma cidade do centro de França, mais precisamente Brive, encontro  um conhecido que me convida a ir a sua casa, para me entregar uma encomenda para a família; comecei por recusar dizendo que não tinha tempo, mas como ele insistiu tanto e que morava ali perto, fui; pois é sempre um prazer para um emigrante português receber um compatriota e de mais conhecido e da mesma area de origem; pois ao verificar onde esse compatriota habitava, fiquei chocado com as condições encontradas e o local onde vivia.  No fundo da escavação de uma antiga pedreira, numa barraca improvisada, sugeito a um desmoronamento a todo o momento.

Embora fosse dentro da cidade, confesso que era de meter mêdo  o local onde este compatriota habitava , mas este era um dos iliterados habituado a tudo e a todo o trabalho, um desses tantos desprotegidos pela circunstancias da vida , que ainda tinha a família em Portugal e por conseguinte vivia ali para amealhar dinheiro  e nada mais;  pois se ele quisesse poderia viver em melhores condições. Noutro caso, numa viagem cujo destino era Dusseldorf, na Alemanha, depois de dois dias e uma noite de viagem já muito para o norte de Paris, parámos já quase sol posto para comer, da merenda…à hora de jantar, pois emigrantes raramente comiam em restaurantes.

Paramos num pequeno desvio à beira da estrada em frente do qual estava uma casa em ruinas, meia desmoronada, meia direita, era um domingo do mês de Agosto de 1971. Cada um dos passageiros, neste caso eram passageiras, moças novas que trabalhavam na Alemanha, abriu a sua merenda, bom chouriço caseiro, presunto, etc e começámos a comer; entretanto numa vista de olhos ao lado da casa é que verificamos  que a mesma estava caída na parte de traz. Alguem do grupo diz: mesmo assim e capaz de cá morar algum português:

Mal as palavras eram ditas e uma voz houve-se  lá de dentro dizendo; ó filhos do C...lho;   todos ficamos calados por um momento mas depois começamos  na rizada, afastando-nos um pouco da casa.

Entretanto disse eu; tambem poderia sêr mais educado e falar doutra maneira, se já sabe que somos portugueses; ou seria talvez nortenho, para os quais esta expressão é vulgar.

No entanto para retribuição, metemos-lhe algumas cascas de melão, pelo buraco do correio.  Brincadeiras !!! 

Estes são alguns exemplos das condições em  que a princípio alguns compatriotas tiveram que sugeitar-se.

Felizmente que o panorama hoje é bem diferente e todos os emigrantes portugueses vivem mais ou menos em condições decentes  e muitos mesmo em melhores condições do que alguns naturais do próprio país.

Daí advem algum sentimento de racismo dos naturais do país, para com os emigrantes.

Entretanto as aldeias deste Portugal do interior ou melhor rural, porque nem só do interior emigraram, iam-se tornando despovoadas, como que povoações fantasmas e quem as percorria via apenas  uma ou outra pessoa a maioria  já de idade avançada, espreitando uma réstea de sol.

Em muitas delas algumas escolas fecharam por falta de alunos, assim como fecharam estabelecimentos e acabaram outras actividades regionais e artesanais, obrigando muitos outros a emigrar tambem !  era um tempo de frustação. 

Entretanto uma nova actividade se tornava notória;  a construção civil.                                                                           

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~~~ capitulo III ~~~

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~~~ O  Começo da Nova Vida ~~~

Passados os primeiros meses de trabalho e recebidos os primeiros salários, (que  seriam de miséria para o cidadão francês,) mas para os emigrantes muito melhores dos que recebiam na sua terra, os primeiros cheques começavam a chegar de França com as instruções para a esposa, para o pagamento da importancia pedida para a viagem.  

Normalmente os emigrantes contraíam empréstimos para a viagem do”salto” além de outros empenhamentos que já tinham, como por exemplo com o padeiro, o merceeiro, etc. Estas situações tornavam-se crónicas no modo de vida levado em Portugal, por estas alturas.

(Meus pais e familiares tinham estabelecimento de mercearia e padaria e disso tenho conhecimento pessoal.) As dividas eram uma constante da vida do povo e os comerciantes suportavam endivídamentos da grande maioria dos clientes, sem que muitos deles tivessem a mínima possibilidade de os pagar.

Porem; a emigração veio desbloquear esta situação e trazer uma nova vida às aldeias deste Portugal rural. Pagaram-se dívidas que de outra forma era impossível fazê-lo, consumia-e mais, as transáções do comércio aumentaram substancialmente  e  a aquisição de propriedades rurais e construção de moradias, tornou-se um facto normal.

Porém no que respeita ao comércio, foi sol de pouca dura, pois os emigrantes cêdo começaram a levar as familias para junto de si, como era de esperar, o que provocou o encerramrnto de muitos pequenos estabelecimentos.

As velhas aldeias, iam-se tornando novas, materialmente e envelhecendo humanamente. Contraste que ainda hoje predomina em todas as zonas que sofreram a emigração dos anos sessenta 60/70.

Porém começava a sentir-se mais confiança no futuro; havia já algum dinheiro e a possibilidade de amealhar mais uns tostões.

Amealhar era a ideia do emigrante da aldeia, habituado a uma vida de sofrimento e privações, não fosse aquele “Brazil” acabar.

Nesta altura, nota-se uma animação no vai vém dos emigrantes para arranjarem os documento necessarios para levarem a familia para junto deles.

Movimentan-se já diariamente os cadúcos automoveis de praça das aldeias, e quem quiser participar neste movimento, tem que adquirir um novo “Mercedes,” (o mesmo que eu fiz) que apareciam todos os dias nas sedes de concelho, empoeirados de tal forma que mais pareciam vir de um deserto africano, visto que a maioria das estradas não eram  alcatroadas.

Enchiam-se as Repartições Publicas e as táscas de comes e bebes; as sedes de concelho começavam a lucrar com os emigrantes, mais do que as próprias terras de origem. Entretanto as crianças começavam a calçar os primeiros sapátos e a vestir mais decentemente, assim como todo o agregado familiar.

Principalmente na época de verão, a animação e o colorido das aldeias já não eram o mesmo do antigamente.

Os cafés começaram a aparecer nas aldeias, para substituir as antigas tabernas, embora a função destes fosse exactamente a mesma, só com a diferença  de terem uma televisão e mobiliário mais agradável.

Já se bebiam umas cervejas, bebida que outrora era    de ocasião, ou para os ricos. Entretanto começaram a consultar-se os constructores civis que nesta época iam  flourecendo, para a construção de habitações e  a pequena aldeia vai aparecendo com umas manchas coloridas, vista de longe.!

É o dinheiro da França!; houve-se esta frase da boca de todos...e na realidade assim era. Desmoronava-se a velha casa que os seus antecessores deixaram e erguia-se outra nova, compravam-se terrenos para a edificação de outras, alargava-se a povoação em todas as direcções.

No entanto a sangria da força humana continuava o rumo da França; rara era a noite em que não fossem mais uns tantos; primeiro os pais, depois os filhos mais velhos, aqueles em idade de trabalhar e mais tarde todo o agregado familiar; e assim continuou por vários anos o emigrante português a procurar a Europa para lá dos Pirineus…em busca de melhores condições de vida.

Continuavam a fugir os jovens em idade militar e mesmo a desertarem alguns que já no exército serviam, pois a guerra no Ultramar continuava a precisar deles e muitos mais para a fogueira e isso é que muitos não queriam…e muito bem. Valia mais ser-se escravo em França, do que morrer reta-lhado por uma catana, na Guine, Angola ou Moçambique, assim diziam muitos.

É certo que se sugeitavam a não voltar mais à Patria, a não ver a familia e os amigos  quem sabe por quantos anos, a ser exilados dum regime.

Mas à sempre a esperança de um dia haver uma mudança, nem que seja a bastantes anos de distancia ! e na realidade essa esperança apareceu no dia 25 de Abril de 1974.                  

Esse sonho de um dia poder voltar à Pátria, livres e sem receio; de poderem novamente vêr os “seus” concretizou-se; valeu  a pena tentar o “salto”, era uma fuga de sobrevivência.                                                                                                                  

 

                                                                                                         CAPITULO - IV

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                                                                                                ~~~ A Alegria da Visita  e  ~~~

                                                                                       ~~~ o Drama da Morte na Estrada ~~~

Passados que foram os primeiros anos de emigraçao maciça, começaram a aparecer os primeiros automoveis trazidos pelos emigrantes,nas suas viagens de férias.                                         

A alegria de voltar à terra natal, (ainda que temporariamente) era enorme como se calcula.

Toda a familia se sente feliz de poder visitar a terra  levando pela primeira vez um automovel seu.

Luxo que no seu país só raras pessoas possuiam e eles pobres emigrantes, tinham conseguido com o seu trabalho árduo, aquele sonho que alguns anos atraz era totalmente impossível.           

Sobre este Capítulo vou citar alguns exemplos de que fui testemunho nas muitas viagens que fiz no transporte de emigrantes.          

No regresso de uma viagem ao Nordeste de França; Nancy, encontro  nos “Vosges” uma familia que vinha de visita a Portugal. Residiam naquele Departamento, (provincia).

Era já sol posto, eu estacionava por uns momentos na berma da estrada e eis que um automovel parava junto do meu (que era facilmente identificado como português, pela cor de Taxi)               

 e me  falaram a minha lingua.                 Eram compatriotas meus.

Depois de uns momentos de conversa, onde me disseram de onde vinham e para onde seguiam e como tencionavam fazer a viagem, aproveitar a noite para adiantar caminho; aconselhei-os a não fazerem isso, fazendo-lhes ver o perigo que isso representava; para descançarem a noite.

Para mais o filho não conhecia a estrada, pois era a primeira vez que fazia a viagem e por isso a experiência destas viagens não era muita.

Mas qual quê! ninguem conseguiria mudar-lhes a ideia diz o chefe de familia e, ei-los a  caminho de novo, depois de eu os informar de que não poderia acompanha-los, pois tinha que comer e dormir alguma coisa durante  a noite. Quem conduzia era portanto o filho mais velho , com à volta de 20 anos de idade; sim… porque o pai infelizmente não sabia ler ou escrever o suficiente para tirar a carta assim me disseram.

Neste fim de semana de verão,com as férias a começar, esta familia não pode esperar mais e mal acabaram o trabalho , sexta feira de tarde, já com as coisas prontas, comeram alguma coisa  e decidiram partir ainda essa tarde.  Ninguem conseguiria dormir com a ansiedade da visita a terra natal, disse o pai.

Aqui impéra uma grande falta de senso, mas hei-los em <route> a caminho da fronteira Pirenaica de Hendaya, principal porta de entrada para a nossa Pátria, là mesmo no fundo da Europa.Talvez nos encontrase-mos lá mais para  a frente, já em Espanha, disse-lhes eu. 

Assim, depois de ter passado essa noite e o dia seguinte…na outra manhã, eis que passa por mim já proximo de Salamanca, Espanha, o Peugeot 403, azul claro, buzinando e acenando, rolando a não menos de 100 km à hora naquela estrada plana. Reconhecemo-nos uns aos outros, pensando eu para mim prorio, é  o pessoal que antes de ontem à tarde estiveram a falar para mim, lá no norte de França. Alguns minutos depois, apos ter passado uma recta de alguns kms, depois de uma pequena elevação, deparo com um desastre; tinha-se dado precisamente nesse momento.

Veio me imediatamente à ideia não fosse aquela família de portugueses  e verifico pela côr do automovel que na verdade eram eles.

Momentos de expectativa ; o meu corpo arrepia-se  e o meu coração bate mais forte. Ó meu Deus, o que eu vejo aqui ! e eu que sou dos primeiros a chegar ao local; apetece-me chorar !  Sangue...vidros partidos em redor, muitas coisas espalhadas, o automovel de rodas para o ar amachucado sobre a parte da frente em direção contrária, no outro lado da estrada; alguns metros mais alem, um pequeno Fiat 600 espanhol atravessado na estrada, todo amachucado, vidros partidos, duas jovens jaziam dentro dele ensanguentadas e  em  estado de côma ou mortas sabe-se lá !... Do automovel português apenas o choro desesperado e inocente de uma criança de 4 ou 5 anos e os gemidos de alguem não se sabe de quem.  A criança é tirada pela janela, do meio daquele inferno.

Entretanto varios veiculos haviam parado no local e alguem avisa que já tinham seguido a chamar a policia.

A confusão é geral e não se sabe que fazer; se esperar ou começar a remover os corpos inanimados das vítimas.

A porta da frente do Peugeot do lado direito, está meia aberta com o corpo de uma jovem de aproximadamente 20 anos, meio dentro, meio fora, com a cabeça mesmo no pavimento, sangrando pelo ouvidos, boca e nariz; pelo que se nos apresentava , estaria morta ! e isso é nos confirmado pela polícia, depois de lhe ter posto um pequeno espelho em frente da boca, para verificar se havia respiração. Numa ambulancia  e uma furgoneta de caixa fechada , levaram as outras  vitimas para o hospital de Salamanca.

As jovens do carro espanhol,eram da área de Salamanca e uma era professora. Houvi dizer que uma ia já morta e a outra ainda ia com vida.

Entretanto alguns automoveis de emigrantes portugueses, que se dirigiam, ou vinham de Portugal, paravam no local.

Verificada a identidade das vitimas, alguem que seguia para uma povoação próxima dessa localidade, prontificou-se a seguir ao hospital e aguardar os resultados do acidente para assim informar alguem de familia na terra de origem, na Beira Baixa, (não quero mencionar a terra) proximo de Castelo Branco.

Junto com outro motorista de praça português, (o Amorim do Fundão), que apareceu no local, igualmente vindo de França, seguimos até ao Hospital  de Salamanca, tambem na expectativa de sabermos do estado das vitimas.             

Passados alguns dias sube por intermedio deste meu colega, que  ficou por mais tempo junto do Hospital, que a rapariga que morreu no local ia a Portugal de férias, com aquela familia amiga, no que se lhe juntaria seu marido que entretanto ainda tinha ficado em França por mais uns dias até que tivesse férias.

O propósito da visita deste casal era o de levar uma filha de tenra idade, que se encontrava aos cuidados dos avós, em Portugal.

Dos restantes, uma jovem espanhola morreu tambem, enquanto os restantes ficaram hospitalizados, alguns em estado grave, desconhecendo o que aconteceu posteriormente. A criança que tiramos pela pela janela, embora  com alguns ferimentos não parecia a ter nada de muito grave.

Pelo que nos foi dado observar no local, aparentemente seria o sono que deu origem a que o carro do nosso compatriota saísse da mão e fosse embater no outro espanhol que vinha em sentido contrario, na sua mão, enfeixando-se em seguida numa barreira, depois de ter tocado numa arvore.                 

Dramas como este acontecem frequentemente com emigrantes, (e não só) na ansia de chegar o mais breve possivel sem que tenham o descanço necessario que estas longas viagens exigem, provocam o luto e a dôr  em muitas familias. Este é bem outro drama da emigração europea e quantos de nós o sentimos e sofremos.                                                                                           

                                                                                  ~~~ Agosto de1969~~~                                                                                                                                                                                                                                                                   

 Em outra ocasião, seguia eu em França, na estrada nacional “10”, no percurso de Hendaya-Bordeux, rumo ao norte.

Àquela hora da noite apetecia parar para descançar e dormir, até que viesse a manhã.  Mas levava a ideia de passar Bordeux ainda  de noite antes da hora matinal, para evitar o movimento da cidade.

Quem  fazia estas viagens sabia que era assim o hábito.

Só assim não se fazia quando de todo era impossivel ou a experiencia destas andanças fosse pouca.  

Seria talvez  a origem do que adiante vou relatar.

Pois já a escassos kms de Bordeux onde os restaurantes já abundam, vêm-se os habituais automoveis e camiões com as luzes de presença acesas, parádos nos parques dos mesmos ou  em desvios na berma da estrada. 

Seguiamos nós, eu e passageiros, ensonados, alguns deles dormindo, quando chamei a atenção para um grande clarão de fogo que se via ao longe e que nos despertou, pensando tratar-se de um incendio.

Era na verdade um incendio, que teve a sua origem numa catástrofe que envolveu dez compatriotas nossos, da seguinte maneira.  

Seguia rumo ao norte, Luxemburgo, segundo o que ouvi dizer depois, uma carrinha com emigrantes portugueses, no total de 11 pessoas entre elas uma criança de 3 ou4 anos de idade, a unica sobrevivente da catástrofe.

Chegados proximo do local do braseiro, verificamos que tinha sido um acidente com um camião cisterna, que transportava liquido inflamavel e foi abalroado na traseira, quando estava estacionado num desses desvios na berma da estrada, pela furgoneta de passageiros portugueses que se enfeixou na traseira, originando o incendio ao mesmo tempo que se espalhavam as chamas em redor, envolvendo  a carrinha  e a floresta proxima.

Dos ocupantes da furgoneta portuguesa, segundo o que constou, apenas um motorista francês conseguiu tirar a criança por uma janela, morrendo naquele inferno todos os outros ocupantes da carrinha, no total de 10.

Este numero foi o que se falou na altura do acidente, pessoalmente não pude testemunhar se este numero era exacto, o que na altura era impossivel até porque os bombeiros e policia francesa não deixavam ninguem aproxima-se  do local, como é lógico.   Por outro lado nada havia a fazer, pois tudo estava carbonizado pelas chamas  que ainda ardiam.

O que sube foi-me constatado no local, onde havia já uma multidão enorme que se acumulou na estrada, pois esta foi cortada ao transito, por muito tempo, obrigando os mais apressados a procurar um desvio de muitos Kms, para seguir destino. Tudo isto a acontecer  de noite… mas para nós o sono já passou.

O expectro da tragédia era uma constante na nossa mente e especialmente para mim conductor, esta viagem tornou-se bastante penosa ao ponto de nos sentir-mos doentes, pois ver diante dos nossos olhos, dez  compatriotas nossos morrerem naquelas circunstancias tão tragicas e nós seguir-mos  exactamente nas mesmas condiões de viagem, rolar até poder, correndo riscos  a todo o instante, tanto pelo cansaço como pelo sono, chegar ao destino foi um verdadeiro tormento.

O regresso que  eu teria que fazer sozinho, preocupava-me igualmente, mas depois de um bom sono e descanço em casa de um dos clientes, a minha moral  rejuveneceu um pouco.

Dois dias e duas noites, rolando na estrada sem nada dormir, tal o efeito deste acidente no meu moral.  E se alguem teve a infelecidade  de assistir a acontecimentos desta natureza, quando em viagem, de noite, sabera avaliar  o esforço necessario para se completar  a jornada nestas circunstancias. 

Tinha presenciado uma tragédia e quem sabe se o mesmo não me aconteceria a mim tambem, pois as condições em que se faziam estas viagens eram péssimas; comendo mal, (das merendas) dormir ainda pior, (dentro do automóvel) a longa distancia a percorrer e a constante saturação do transito com os veículos superlotados e carregados até ao maximo, depois o retorno sozinhos, faziam  destas viagens um constante perigo.                              

Amaldiçoava  tal vida, tanto eu como a familia igualmente, mas não havia outra alternativa de sobreviver nesta profissão, nas aldeias. Ou emigrar definitivamente ou emigrar todas as semanas enfrentando o mesmo perigo.

Mas ao fim e ao cabo, tenho saudades desses tempos, dessas viagens... recordações que ficaram para sempre na minha memória.                                                         

Mas por vezes dentro do azár, tambem se tem sorte e tem o seu quê de interessante; e este caso seguinte é bem a expressão do que afirmo.

Numa tarde de Setembro  em que a chuva já começa a aparecer com frequência, rolava eu em Espanha entre Valladolid e Burgos com destino a França.

Umas centenas de metros a minha frente, rolava um Renault 10 com o mesmo destino; numa curva acentuada, antes de entrar numa ponte, sob a aqual passa a linha de caminho de ferro, talvez devido à chuva ou a falta de atenção do conductor  e eis que o Renault sai fora da estrada, por uma pequena rampa e fica virado sobre o lado direito no fundo do valado que cerca estrada.

Como ocupantes, apenas o motorista e a esposa, um casal ainda jovem; parei e verifiquei que eram compatriotas nossos.  Refeitos do susto, pois nenhum ficou ferido, nem tão pouco o automóvel danificado, afora umas ranhadelas do lado direito, apanhamos as malas  que seguiam no porta bagagens, que ia meio aberto, espalhando-se, colocamo-las novamente no sítio, mais um garrafão de azeite a que se lhe soltou a rôlha, espalhou-se por todo o  compartimento, temperando um pequeno saco de feijões e outras coisas mais, tudo  coisas sem grande importancia, em relação ao que poderia ter acontecido.

Decidimos pôr o automóvel a direito; uns puchões e uns balanços e o Renault esta novamente em posição de andar. Pôs-se o motor a trabalhar, verificam-se os travões, tudo parece funcionar normal e eis novamente este jovem casal a caminho de França. Era visivel o contentamento de ambos e sublinhavam que apesar do azár ainda tinham tido sorte, pois tivesse isto acontecido alguns metros mais à frente, o automóvel e os seus ocupantes ficariam despedaçados lá no fundo, na linha de caminho de ferro, o que seria outra tragédia a acrecentar a tantas outras. 

Depois de nos terem oferecido uma bebida num café mais à frente, a nós e a dois espanhois que igualmente ajudaram a por o automóvel  na posição normal, eles aí seguem novamente, mas não sem dizer: < Ná ! esta fica-me pra emenda,> com a estrada molhada é preciso cuidado... (principalmente depois de um longo periodo sem chover  e depois vêm as primeiras chuvas... sublinhei-lhe eu).   Como se verifica tambem é preciso ter sorte, no azár e foi o que tiveram estes nossos compatriotas.

Teria muitos e muitos episódios a descrever, mas o meu proposito não é esse.

É sim dar uma ideia suficiente, da vida do emigrante português em França.           

Claro que acidentes acontecem a toda a gente; a mim tambem me aconteceram alguns, felizmente sem gravidade, durante os dez inesquecíveis anos em que percorri as estradas da Europa, mas ao emigrante europeu, estes fazem-lhe parte da vida.

Vou descrever alguns  desses episódios que me aconteceram  a mim e me ficaram na memória, pelo perigo que poderiam ter representado, mas que felizmente não tiveram consequencias graves.

Numa ocasião em que regressava de França, tinha conduzido quase toda a noite e sobre a manhã ao chegar proximo do cruzamento de Alsássua, havia uma curva muito acentuada e perigosa antecedida por uma recta e descida e naqual estava marcado no pavimento da estrada, a velocidade maxima de 40 km por hora, pois qual não foi o meu espanto ,encontro-me mesmo em cima do sinal a uma velocidade  à  volta dos 100 km/hora. 

Escuzado será dizer que paniquei e mêto travões a fundo e o velho Mercedes 180, atravessa-se-me na estrada e vira-se em sentido contrario.

Fiquei, como se costuma dizer, sem uma pinga de sangue, pois valeu-me a circunstancia de àquela hora da manhã, não haver muito transito, pois se me aparece-se um veiculo pela frente o desastre seria inevitável e certamente de trágicas   consequencias.
Levava a ideia de ir dormir um pouco (no carro) numa fonte que existia mesmo ao passar dessa curva e depois lavar a cara com agua fresca e seguir viagem. Mas já não foi preciso; o susto que apanhei tirou-me o sono.

Noutra ocasião, tambem na mesma àrea, já a passar do dito cruzamento de Alsássua, depois de ter almoçado nesse restaurante que estava mesmo em frente do cruzamento, mêto-me a caminho, depois deter comido e bebido um bom almoço.

Escuzado será dizer que passados 15 ou 20 minutos, encontro-me guiando na estrada, quase dormindo, sem que me tenha apercebido e já so vejo na minha frente um camião espanhol fazendo sinais de luzes e buzinando frenéticamente, pois eu sem me ter dado conta, ia guiando de frente  na linha contrária em direcção a ele… e só me apercêbo do facto, a escassas dezenas de metros, antes de embater frontalmente com ele e instintivamente, desvio-me para a minha mão. Parei imediatamente e fiquei estático por alguns momentos, pois na minha ideia penssava que ia guiando atraz dele, quando realmente ia guiando contra ele. Tudo isto acontece com o cansaço e o sono que vem depois de uma boa refeição.

Esta tambem me ficou para emenda, felizmente a sorte esteve a meu lado mais uma vez. 

E por ultimo quero mencionar o meu azár no que respeita à quebra de pára-brisas.

Este era um dos precálços que me acontecia  muitas vezes e vou mencionar apenas um, para não ser fastidioso.

Em Espanha, numa tarde de Verão, rolava eu a volta dos 100 km/hora, eu raramente ultrapassava este limite,  e de repente estoira-me o vidro da frente e fico sem visibilidade nenhuma, pois  este  ao partir transforma-se como que seja vidro fosco,. o transito àquela hora da tarde era intenso e só tive a reflexão de travar, baixar- me no acento e  esperar que o carro parásse, o que aconteceu, em cima de um monte de areia na beira da estrada, a escassos centimetros de uma àrvore, pois mais uma vêz instintivamente desviei o carro para a berma , para evitar o possivel choque frontal com o transito que vinha em sentido contrario. Novamente nada me aconteceu, alem do susto, tendo feito o resto da viagem sem para-brisas, até chegar a casa .

Porem ao chegar a noite, tive que me embrulhar num cobertor, que sempre me acompanhava, e pôr o boné (de chaufer de praça) enterrado até às orelhas, pois a deslocação do ar tornava impossivel viajar a uma velocidae capaz de chegar a casa ainda essa noite, o que consegui por volta da uma hora da manhã.

Estes são episóodios que nunca esquecem, e como se diz, quem anda à agua, molha-se.

Teria muitos mais para descrever, mas não quero tornar-me fastidioso, quero apenas relatar o que era a vida dum motorista de praça, nos tempos aureos da emigração portuguesa, das decadas de1960/70.           

Ao escrecver estas linhas vejo na imprensa mais um destes dramas , que como atraz digo, fazem parte da vida do emigrante português na Europa.

Pelas consequencias deste acidente aqui o refiro, para reforçar o argumento deste têma, <drama na estrada>. 

A 43 km de Burgos, dois automoveis de emigrantes  portugueses, sofrem acidente e três crianças, de 6-8 e 10 anos de idade, perdem a vida enquanto três outros familiares ficam feridos.

No mesmo acidente, outra familia no total de cinco pessoas, ficam gravemente feridos. Ficará o numero de mortos só em três neste acidente ? O tempo o dirá ! Ao olhar-mos para o trágico desfecho destas duas familias, que depois de umas férias na Patria encontram a morte e a tragédia no caminho.

O que nos chóca mais, alem de tudo, são estas três crianças que bem cedo, no desabrochar da vida, sofreram as consequencias da vida de seus pais… emigrantes. Não são necessrios mais comentários.

Todos os emigrantes, que o foram, ou o são, comprendem o que significa a palavra, emigrar.  Referindo-me mais concretamente a França, que devido aos factores; situação geográfica, a relativa média distancia  a que se encontram em relação ao nosso pais, estes têm ao seu dispor uma diversificação de meios de transporte que lhes permitem utilizar, desde a simples moto ao autocarro, e desde o comboio ao avião.

Estes factores dão-lhe uma característica especial em relação a outros, noutras partes do mundo. 

Senão vejamos  alem da facilidade com que se deslocam ao nosso pais, as variedades de comestíveis  e outros bens de consumo que levam e trazem nas sua deslocações, o que não é possivel a outros, de outros países.

Menciono as bebidas, o azeite ,feijão, queijos etc, e o respectivo porco, completo, mas cortado em pedáços  e disfarçado por toda a bagagem, como sendo coisas normais, da grande maioria.

(Se o não são actualmente, eram-no num passado não muito distante), menciono tambem outras  que  embora não sendo tão normais, mas que aconteciam, tais como: levar a propria cama, (divã) completa, com o respectivo colchão e… galinhas, vivas claro, e trazê-las tambem quando vinham de férias.

Não se pense que estou a ezagerar, pois estes factos foram passdos comigo, na minha vida de motorista de praça e portanto a que eu assisti.

Não pretendo com isto criticar aqueles que o fizeram, mas tão somente um termo de comparação entre o emigrante de um país e o de outro.

Não se pretende dizer que todos os emigrantes em França, pratiquem este modo de vida, pois milhares há que nem se identificam facilmente como emigrantes, integrados como estão no ambiente de vida europeu.

Este pormenor cada vez mais se acentuará na medida  em que a permanência no país emigrado se prolonga e os costumes das novas gerações se integram no modo de vida geral desse mesmo país onde residem, mantendo os costumes Ibéricos, apenas os mais idosos e os iliterados, que como é natural, encontram mais dificuldades em assimilar os costumes da moderna sociedade europea.  Quando em férias, principalmente nos meses de verão, esta invasão francesa, (não a de Napoleão Bonaparte) mas de compatriotas nossos que visitam a mãe patria, imprimem uma nova vida a milhares de localidades do nosso Portugal.

A vida das pequenas povoações, movimenta-se repentinamente, as  atraentes moradias fechadas ao longo do ano, reabrem e enchem-se de alegria e musica.

Já há nelas o sinal de vida, embora infelizmentepor pouco tempo... como seria bom que o fosse definitivamente, mas não é possivel.        

A casa na aldeia em Portugal, só para as férias; e a tal iluzão... de um dia voltar.???   As ruas apinham-se de automoveis e os cafés igualmente de pessoas. O ambiente é outro.

Não monótono como até aqui; mas animado, vendo-se em cada rosto, tanto dos que estão, como dos que vieram, a satisfação por poderem rever a familia e os amigos e enfim a nossa terra.

Ao passar-mos pelas ruas, com todo este ambiente francês… automoveis, musica, as crianças e jovens falando a lingua francesa, da-nos a sensação de estar-mos em qualquer lugar do territorio francês.

Porem toda esta azáfama e ambiente colorido, é temporario.

Vindo o final do mês de Agosto aproxima-se o fim das férias e cada um regressa ao seu local de trabalho.

A vida das povoações cai novamente no quotidiano, na monotonia, no silêncio. Nos rostos dos que ficaram, principalmente idosos, ja não se vê a alegria das  semanas anteriores, mas sim a tristeza de terem ficado sós…da triste separação novamente.

Toda a vida da propria aldeia perdeu o ritmo e a alegria.

Os trajos das pessoas já são mais a característica do nosso viver; cores escuras, tistes e negras, como que a expressão do que lhes vai no coração... por terem visto partir os <seus>, os netos, os filhos, os primos, os tios, os visinhos, os amigos. As disparidades dos trajos e cores da vida moderna já se não veêm, mas sim os reflexos dos nossos hàbitos ancestrais.

Estes romeiros do trabalho ao aproximar-se a ultima semana de estadia na Patria, tratam de adquirir os productos que tradicionalmente são do seu agrado e os comestíveis preferidos.

Assim os feijões, queijos, azeite, presunto e algumas bebidas, são procurados por toda a parte. Como tal, movimentão-se as feiras e mercados locais, nas vilas e cidades, locais de abastecimento de todas as aldeias.

Para o regresso, mobilizam-se todos os transportes disponíveis, para aqueles que não têm automovel. Enchem-se os comboios, autocarros, automoveis de aluguer, tudo oque é possivel, participam nesta operação de regresso, que todos os anos se repete, pelo Natal e no Verão.

Principalmente no principio e fim, dos meses de Julho e Agosto, o movimento de emigrantes é  impressionante quase dificil de descrever; dir-se ia que é um êxodo de refugiados, fugindo de qualquer cataclismo.             

Confesso que tenho saudades desse tempo das partidas e chegadas e de fazer estas viagens.

O involvimento nesta deslocação maciça de pessoas, torna-se um tempo inesquecível, proximo das fronteiras e ao longo das estradas de Espanha, tornando-se tempo de romaria

Coloridos grupos aqui e alem comendo as suas merendas, o constante passar de viaturas com malas, o reemcontro de amigos e conhecidos ao longo de todo o trajecto, principalmente Espanha, (pois ao entrar-mos no territorio francês, já cada um segue diferente caminho), fazem  destas viagens momentos inesquecíveis da nossa vida.

Um amigo que se vê na fronteira portuguesa hoje pela manha e segue uns minutos à nossa frente, poderá  ver-se só na manhã seguinte à entrada do territorio francês. Mas tambem pode acontecer passar-se por ele ,3, 4, ou 5 vezes  durante o percurso ou quando estão parados a comer da merenda e então buzina-se e exclama-se dizendo: Adeus, ó Manuel; ele assána-nos com o copo na mão,como que dizendo; não queres um copo?... mas não se pode parár, à que seguir para a frente pois a viagem é longa.

Umas horas mais tarde é ele que nos descobre  a refrescar-nos  numa fonte ou reconhesse o carro estacionado em frente de um dos muitos bares ao longo das carreteras espanholas. Por vezes pára-se e convive-se uns momentos,  trocam-se impressões sobre a viagem, pergunta-se o destino que cada um lêva , se é que não se sabe e uma caravana por vezes de meia duzia de viaturas, de amigos e conhecidos, segue...até que  uns ou outros, por este ou aquele motivo se atrasam e já não se voltam a ver mais.

E quantas vezes esse amigo, com quem convivemos na viagem, já não chega ao destino ! A tragédia  e por vezes a  morte  espreita-o na estrada e dias depois houvimos dizer que o Manuel ou o José, a quem tantas vezes acenamos no caminho, teve um acidente e morreu antes de chegar ao destino, ou um acidente no trabalho, poucos dias depois de ter ido de férias e lhe roubou a vida.

De tudo isto eu sou testemunho.    É o drama do emigrante.           

Todas estas recordações eu guardo na minha mente e me trazem alegria e tristeza, como recordações da minha vida passada com os emigrantes, da Europa e como emigrante.

Como atraz refiro, este regresso de férias é um tempo de alegria, lágrimas e triteza. Ainda se  não viveram as alegrias da chegada e do reêncontro familiar,  já se sentem os momentos àrduos da despedida e da partida; principalmente enquanto se não começa o contacto com a vida alem fronteiras... sim porque a coisa vai esquecendo um pouco mais, passados o primeiro dia de viagem, caso contrario seria impossivel para muitos emigrantes, permanecerem ausentes da família, se o choque moral e psicologico da separação familiar não se desvanecesse mais, com a partida e o hábito destas despedidas.   

Porem só quem assiste diariamente à despedida de muitos deles e os transporta aos pontos de partida ou locais de trabalho, sabe avaliar o que estes momentos custam. Muitos choram lagrimas de sangue ao deixarem a jovem esposa com um filho de tenra idade nos braços e que só voltarão a ver, sabe Deus quando.          A caminho para a estação de caminho de ferro, ou fronteira, de lagrimas nos olhos, amaldiçoavam a vida de emigrante e quem na inventou.

Outros hà, que chegam ao destino e voltam passados um dia ou dois, por não terem a coragem de suportar a ausência.

Estou- me a lembrar de um amigo meu, (de infancia), na altura com à volta dos seus vinte oito anos e que eu fui pôr ao Departamento do Jura, situado na convergência das fronteiras Suissa e Italiana, já com os Alpes à vista.

Já não era a primeira vez que este amigo meu pizava solo estrangeiro, pois emigrou logo  que regressou das campanhas da guerra em Angola.

Porem desta vez deixava a esposa ainda jovem com um filhinho de tenra idade. Na viagem, que durou dois dias e quase  duas noites, depois de alguns desvios por outras partes de França para deixar outros companheiros, ele pediu-me para ser o ultimo a deixar, ao qual acedi por via dos laços de amizade que nos prendiam e da boa camaradagem deste bom amigo.

Ao chegar-mos à fria vila de Champagnole já pelo fim da tarde, ele insistiu para que eu dormisse junto dele e partisse no dia seguinte.

Não aceitei a ideia e iniciei a viagem de regresso ainda essa tarde, visto já ter demorado muito tempo no trajecto.

Entretanto ele manifestava o seu descontentamento e o seu pezar por ter deixado a esposa e o filho e dizia constantemente com as lágrimas a aparecerem, que aquilo não era vida... que ficasse para o outro dia, pois talvez ele voltasse novamente comigo para Portugal.

Eu deixando-me rir, disse-lhe <tu estas a brincar> Ele dizia, não estou não, Belarmino, parece-me que não sou capaz de ficar aqui metido dentro destas quatro paredes (do quarto de dormir) isto não é vida para mim, que se lixe o dinheiro.  Eu até decidi partir mais  nessa mesma tarde para que ele não se arrependesse e voltasse comigo, pois já tinha gasto todo aquele dinheiro.

Mas isso pouco importou ao João; ele lá ficou esse dia mas por pouco tempo, apenas uma noite, pois na manhã seguinte o João dirige-se novamente à estação de caminho de ferro, para regressar à sua aldeia e reunir-se aos <seus>. Dois dias depois, quando eu aguardava o comboio na estação de caminho de ferro de Tortosendo, que serve a minha aldeia, qual não foi o meu espanto ao ver o João, com as malas nas mãos dirigindo-se para mim.

<Eu não te dizia que ficasses para o outro dia, que talvês viesse contigo?>.          

Para quem sabe o que é emigrar não são necessarios mais comentarios, só quem o fêz o sabe avaliar.

Mas… passado algum tempo, numa ansia de coragem, este João e muitos outros Joões, emigrantes, decidem partir novamente, pois a vida na aldeia, é o que se sabe. Outros há que regressam à Patria, na ideia de não mais voltar a emigrar... mas a iluzão vai-se desfazendo, com o contacto diario com a realidade e passados alguns meses, são forçados a partir novamente.

A tudo isto assisti, na dezena de anos que fui motorista de praça, na minha pequena aldeia Beirã, até que chegou a minha vez e fui forçado a emigrar tambem; não todas as semanas…mas definitivamente! E por conseguinte ser protagonista do mesmo drama, de tantos a que assisti e ao escrever estas linhas, recordando as lágrimas de tantos outros, aparecem-me tambem as minhas, porque tambem sou emigrante a dez mil kms de distancia da Patria, com todo o Continente Norte Americano e Oceano Atlantico a separar-me dessa faixa de terra ao longo desse mesmo Atlantico, (mas no outro lado) no ponto mais Ocidental do Continente Europeo, onde deixei meus pais, família, amigos, tradições e tudo o mais que me era querido.

Felizmente que pude trazer comigo a minha familia, esposa e filha, pois de outra maneira não emigraria.

 

 

 ~~~ Capítulo V ~~~

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~~~ A incerteza de Ficar ou Voltar ~~~

                   

Tornando-se rotina, esta vida de vai vem do emigrante e como entretanto os anos vão passando, os filhos crescem, precisam de educação de se prepararem para o futuro e aqui a dor de cabeça dos pais começa tambem.

A indecizão de ficar ou voltar não se consegue vencer.

A vontade de voltar predomina nas nossas mentes, mas numa visita à Patria, mais proriamente à localidade onde vivia-mos e temos a nossa casa, familia e amigos e pensaríamos novamente voltar, o panorama não é atraente. 

Mas fazer o quê ?   Como sobreviver ?

Ainda que se tenham algumas possibilidades financeiras, como integrarmo-nos na vida do país de onde já partimos à tantos anos e enfrentando a incerteza de perdermos aquilo que tanto nos custou a angariar ? 

Trazer os nossos filhos para os educar-mos no nosso Portugal, para onde desejamos voltar seria o nosso desejo, mas a situação do nosso país não é muito encorajadora.

Entretanto os nossos filhos lá continuam no país onde estamos emigrados, a integrarem-se e a aprenderem a lingua e os costumes desse mesmo país.

Nós passados alguns anos nesta duvida ilusória de voltar, acabamos por reconhecer, na maioria dos casos, que é impossivel pensar no regresso.

Os nossos filhos pronunciam algumas  frases da nossa lingua mãe, mas mal o pouco que sabem foi aprendido em casa com a nossa convivencia do dia a dia  e em muitos casos, a nossa linguagem que não é boa, a deles irá ser ainda pior.           

Assim vamos passando os anos, visitando a Patria de tempos a tempos, até que a nossa vida se apague.  Numa grande maioria  é este o dilêma dos emigrantes. 

Outros    que antevendo o futuro e mais desapegados do sentimentalismo emocional que é apanágio da raça Lusitana, cêdo  se decedem  a não ter a iluzão de voltar .  Noutros casos, alguns mantêm a familia em Portugal, para aí os filhos receberem a educação e formação, mas estes são na maioria aqueles que emigram a sós, deixando a esposa e filhos no nosso país e que portanto passam uma boa parte da vida vivendo separados da familia, condição de vida dificil, que muitos a grande maioria, não aceitam.

Ainda outros, enviam os filhos para Portugal, onde são entrgues ao cuidado de algum familiar ou internados em colégios, mas os resultados deste procedimento são pouco frutuosos, sendo raríssimos os que conseguem algum aproveitamento compensador. Em muitos casos depois de terem passado alguns anos no nosso país, são novamente levados para o país onde os pais estão emigrados, não aproveitando nem num lado nem noutro.

Tudo isto são efeitos da indecizão de ficar ou voltar, ou melhor não haver no nosso país condições para receber todos aqueles que quisessem regressar, hipótese verdadeiramente impossivel.

Infelizmente é este o dilema que temos que enfrentar, pois uma vez emigrados, habituados por vezes a comodidades e condições de vida que não vamos encontrar no nosso país, (embora aí se pense o contrário) desenraizados já do ambiente local e familiar a que estava-mos habituados antes de emigrar, decidimos ficar onde a nossa vida já tem raízes e os nossos filhos integrados nas condições de vida local.

Assim segundo minha opinião pessoal, o nosso país pouco poderá esperar da nova geração, filha dos emigrantes; alem das visitas ocasionais de verão e a conservação da habitação que os “seus”  lhes legaram para passarem as férias e pouco mais.        

Este pormenor mais se acentua nos países fora do continente Europeo, uma vez que na Europa a distancia é menor, as facilidades de deslocação são maiores e os contactos com a mãe Patria são mais frequentes, o que contribui para nos prender mais ao nosso torrão natal e consequentemente à nossa Patria, facto este que não acontece nas outras partes do mundo onde existem emigrantes, que devido à distancia e ao consequente isolamento em relação ao nosso país, mais nos desenraiza dele.

Vale-nos ainda, falando concretamente no caso da América do Norte, (onde resido) o ambiente do nosso mundo português, criado por nós emigrantes:

como Imprensa, programas de radio e televisão, associações desportivas e culturais, instituições religiosas e claro os nossos estabelecimentos de artigos portugueses, cafés, restaurantes, etc, que nos proporcionam um pouco do possível, dos nossos costumes e hábitos, formando assim nós proprios, verdadeiros enclaves da nossa cultura .

Estes factores contribuem para que se crie um pequeno mundo à nossa maneira, que nos dá por vezes a ideia de estar-mos no nosso proprio país, se o numero de portugueses for relevante, claro, contribuindo assim  para que não sentamos tanto a ausencia da nossa Patria.

Sublinho por conhecimento proprio, que estas facilidades quase não existem em França, ou não existiam nos fins de 1970, em muitas localidades onde residia um consideravel numero de compatriotas nossos, apesar de nos ultimos anos se terem incrementado mais estes serviços.                               

O facto de a França e Alemanha ou outro qualquer país europeo se encontrar geográficamente mais perto do nosso, não impede que os emigrantes desses país  se não sintam mais isolados das nossas coisas ao longo do ano, mas que anualmente, pelo Verão ou pelo Natal, visitando o nosso país, revivem e retomam esse contacto, por vezes mais do que uma vez ao ano.                               

Têm ainda a vantagem, aqueles que residem até ao meio do território francês, de escutar os emissores de radio portugueses, de onda média, o que lhes permite seguir dia a dia, os principais acontecimentos do nosso país.

Factores estes que não acontecem nas Américas, Africa ou Austrália, que só visitam a mãe patria em espaços de, tres, quatro, cinco ou mais anos, permitindo assim mais o desenraízamento.

Por este motivo, estas comunidades são forçadas a criar ( à sua propria conta na maioria dos casos) o seu pequeno mundo português.

Assim o emigrante português da Europa é como as andorinhas, que voltam todos os anos, ao mesmo ninho e quando a lei da vida os levar, ficarão os filhos a frequentar esse mesmo ninho até que os laços de cultura e tradição que os une à Patria  dos seus antepassados, se errôda  por completo, assimilados pelo país onde vivem.

 

                                                                                                        CAPITULO  VI

                                                                           ~~~ FINALMENTE O FIM NAS TERRAS LONGINQUAS ~~~

                                                                              =====================================        

 

Ao começar este ultimo capítulo, queria inicia-lo com as palavras dum <filho> de Monsanto, Beira-Baixa, (a aldeia mais portuguesa) que apesar de num país irmão, o Brasil, sente e descreve em 1975, a sua dôr de emigrante da seguinte maneira, para o Jornal do Fundão.                                 

Por encontrar nestas palavras a melhor maneira de descrever a dôr e saudade do emigrante português no mundo; aqui tomei a liberdade de as transcrever. Que me desculpe este nosso <irmão>, cujo nome não menciono.    Diz assim: <Somos quase dois milhões e meio os portugueses praticamente isolados, isto é emigrados, dizem as estatisticas.   Eu sou um dos dessa legião, que longe da sua terra, curtem penosamente, até na abastança, este exílio que para a maioria é definitivo e irreverssível, já que vai até à morte em terra estanha.

Não direi a totalidade, mas a maioria absoluta destes portugueses, eu o sei bem, lembram e relembram, sonham a dormir e acordados, com Portugal, suas terras e rios, suas montanhas e vales, seus castelos e igrejas, suas capelas, santos e romarias.              

E fazem-no porque mantêm vivas na alma e no coração, as recordações de tudo o que lá deixaram e continuam a crêr que exista, sendo tudo isto a fonte de onde brotam todas as suas forças para lutar e trabalhar, vencer ou ser vencido, nas condições às vezes mais adversas.

É por isso que nós os que estamos exilados, longe de tudo o que na nossa terra foi e continua a ser motivo de amor e saudade, sentimos tão agudamente tudo o que a ela se refere e nos inquietamos, sobressaltados com as suas tristezas e sofremos com as suas desditas.>

Assim vai vivendo quem emigra, sempre no amor à terra onde se criou, na indecisão, sempre na ideia de um dia voltar, o que concretamente raro acontece, acabando por viver o resto da vida  junto dos nossos filhos, mas cá dentro sempre a mágoa, de não poder-mos acabá-la no torrão natal, que segundo impressões colhidas de pessoas idosas, mais se acentua com o descrecer da nossa existencia.

Há que salientar igualmente o facto e este não pode ser ignorado, dos velhinhos, que mais tarde são forçados a emigrar para junto dos filhos, por não terem no torrão natal, quem deles tome cuidado e nesta circunstancia só há duas alternatívas:

ou acabar os ultimos dias abandonado à sua sorte, ou seguir para junto dos filhos, com as consequentes condições de deslocamento do ambiente em que passaram a vida e escusado será mencionar o efeito moral e psicologico que isso representa.     

Nós emigrantes, bem o sabemos.

Os que ficaram em Portugal não comprêndem este  drama psicológico.

Assim um drama dá origem a outro;  o dos que partiram e o dos que ficaram.

Por isso frizo que o drama da emigração, se bem que esta tenha estagnado um pouco, continua e continuará até que as gerações que a sentiram e sofreram, se apaguem da face da terra.

EMIGRAR... passaporte para um drama… que só acaba na morte.  

Termino estes apontamentos com um poêma escrito por mim, em Vancouver-Canada, no ano de 1975, altura em que estes apontamentos foram escritos e que dedico a todos os meus compatriotas emigrantes.

 

                                                                                                                              
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                                                          ~~~ Poêma ao Emigrante ~~~

                                                          =========================

 

                      I

  Ó emigrante, emigrante                                         

Mas que palavra tão triste                    

Começas-te a tua dôr                                

No dia em que partiste                               

           

                    II                                                            

Vais a procurar lá longe

O que aqui não podes ter                      

Vais tentar a tua sorte

Vais ter muito que sofrer                      

 

                  III                                                          

Mas levas contigo a esperança               

De um dia poderes voltar

A ver a terra onde nasceste                   

Que és forçado a abandonar                  

 

                   IV

E quando voltas outra vêz

Para a tua terra visitar                          

Vêz tua mulher e teus filhos

E começas a chorar                               

 

                   V                                                           

Vêz a terra e os amigos

E os que te deram o sêr                        

Esses que não esqueces                         

E lembras até morrer

 

                   VI                                              

E ao partires novamente

Revives a tua dôr

Quem sabe se não vêz mais                      

Esses a quem tens amor                                

                                                                             

                   VII

 O teu pai e a tua mãe

Já tão velhinhos que estão

Mas levas-os atravessados

Dentro do teu coração

           

              VIII

E  já um dia velhinho   

E cançado de sofrer

Voltas para a tua terra 

Que não és capaz de esquecer

 

               IX

Venhas como vieres

Rico; ou com pobreza  

Voltas para a tua terra

Porque ela é portuguesa

 

                X  

E aqueles que não podem

À sua terra voltar ?

“Esses… já velhinhos”

Morrem mais tristes ainda

Cá longe … no seu penar

               XI

Esta é a história da vida  

Da vida dum emigrante

Que deixou a sua terra

E a Pátria … lá bem distante

                      bem … distante   

 

 

               

       Belarmino DuarteBatista

  Set.1975 / Vancouver-Canadá

 

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