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Divulgar ! Porque o tempo faz esquecer... *** Relembrando um Herói ***
Existem na nossa terra Ruas com os nomes dos Pesenses, mortos na guerra do antigo “Ultramar”como, José Paulo dos Santos, Manuel Alfredo Aleixo e Anibal Pereira Casteleira. Todos eles, deram a sua vida ao serviço da Pátria. Não querendo menospresar os dois ultímos, ambos meus amigos de infancia e de quem guardo eternas saudades, no caso do Sargento Paulo dos Santos, existe um acto sublíme que merece ser realçado, como o foi pelo Governo da época, para que não vá caíndo no esquecimento dos mais novos, nomeadamente do Peso.

A Familia de José Paulo dos Santos
Filho de Manuel Paulo e Maria dos Santos, José (o terceiro a contar da esquerda) é o segundo filho a seguir a vida militar , depois de seu irmâo mais velho (o ultimo da direita) Tó Paulito como era conhecido, ter seguido a vida militar profissional. (Desconheço o cargo militar que ocupava) Filho de uma familia extremamente exemplar, com um alto grau de honestidade a familia “dos Santos“eram igualmente Cristâos fervorosos. Por isso nâo admira que o José Paulo dos Santos tenha praticado este acto de sacrificio extremo, em defesa dos homens sob seu comando.
~~~ A condecoração de um HERÓI ~~~~


Cópia do Documento Oficial da Condecoração de”Cavaleiro com Palma”
da Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor , Lealdade e Mérito.
(titulo póstumo) A José Paulo dos Santos

A Cerimónia da entrega da condecoração de, Cavaleiro com Palma, ( a titulo póstumo) à familia de José Paulo dos Santos
pelo Sr. Presidente da Republica, Almirante Américo Tomas, Cardeal (Ceregeira) Patriarca de Lisboa, Ministro do Exército
e outros altos Membros da Forças Armadas, no Palácio de Belem, em 17 de Setembro de 1963.

Transcrição do documento publicado no Diario do Governo
Por Alvará de 15 de Novembro do corrente ano, publicado no Diario do Governo n-o 281-II serie, de 30 do mesmo mês, foi agraciado a titulo póstumo com o grau de“Cavaleiro com Palma da Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Merito” o Segundo Sargento de Infantaria, José Paulo dos Santos.
Nota: Creio ser esta a mais alta condecoração que podia ser dada a um militar, na época.

incluíndo seus familiares.
Foi ainda concedida condecoração publica no Terreiro do Paço, no dia de Portugal, á família do Sargento Paulo dos Santos,
pelo Presidente da Republica, Almirante Américo Tomás, que na altura veio publicada em toda a comunicação social, como jornais
Diario de Noticias, O Seculo, Diario Popular etc.
Se alguem tivesse algum jornal com o acontecimento, seria agradecido a sua facultação para cópia, que depois seria devolvido.
Queria agradecer aqui ao meu amigo Jose Pereira dos Santos , do Site do Peso, pela sua colaboraçâo na feitura desta pagina.
Aproveito a ocasiao para sugerir a Junta de Freguesia do Peso e a Camara Municipal da Covilhâ a possibilidade em erigír
um pequeno monumento em lugar apropriado, para que nâo fosse esquecido este Herói nacional, filho da nossa terra..
--- Ainda me Lembro ! ---
escolhi este titulo para esta serie de escritos
sobre o Peso do meu passado
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~ PESO 1945 - IMAGENS DE INFÂNCIA ~
~~~ AINDA me LEMBRO…~~~
Foi á muitos anos atráz… quando a minha memória começou a fixar as coisas que via, talvez á volta dos meus 5 ou 6 anos. Lembro-me que era uma manhã risonha, com orvalhada, mas com sol quentinho;Tinha dormido em casa dos meus avós maternos, o que fazia frequentemente, pois eu era o seu primeiro neto. Ainda me lembro… o meu avô aparelhou um jumento que tinha, com uma tosca albarda, e pôs-me cima do animal, mesmo em frente á Igreja, onde moravam e resolveu levar-me com ele. Foi a primeira vêz que montei num animal , por tão longa viagem. Fomos até ao sítio do Barrocão ou Barroca das Canas, não posso precisar, hà volta de 5 ou 6 km, pelos velhos caminhos de então, por meio de pinhal e mato, uma verdadeira aventura para uma criança da minha idade; talvês daí a razão do que vou contar e eis o principal cenário que continua vivo na minha mente e o motivo por que escrevo esta crónica.
Ainda me lembro… que ao saír do povoado, no sítio dos Barreiros, quando os casebres da minha aldeia, (sim ... casebres) na altura chamavamos-lhe casas, já tinham ficado para traz e comecei a avistar a natureza. Ao meu lado esquerdo, pinhais; ao meu lado direito, o sol que hà pouco tinha nascido, as vinhas, um chão de terra cultivado que por sinal era de meu avô paterno e houvi o canto das aves naquela manhã, que (hoje sei) era de Primavera, ainda me lembro… do caminho marcado pelos fundos rodados dos carros de bois; e gostei tanto daquela paisagem e daquele contacto com a natureza, que não sei porquê, as minhas retinas de criança, fixaram e gravaram para sempre na minha memória, aquele cenário, para o resto da minha vida.
Na minha mente de criança, penso hoje, se existe o paraíso, seria aquela paisagem,aquele envolvimento com a natureza,naquele ambiente rural, naquela idade do desabrocharpara a vida…visto por uma criança. Como eu gostaria de saber transmitir numa tela, estas imagens de infancia que ainda guardo na minha mente. Ao houvir os diferentes cantos das aves, perguntava ao meu avô e ele me dizia… é o rouxinol, é o pintassilgo, etc, isto ao longo dos olivais e terras de cultivo.Ao avançar para os pinhais,o canto das aves já era outro; o cuco e o gáio, este ultimo lembro-me ter visto alguns… de criança, não talvês nesta minha primeira aventura, pois na minha memória ficou mais acentuada aquela imagem da saída da povoação e o contacto com o espaço aberto e para mim, grandioso da natureza.
Não me lembro muito do resto da jornada, apenas que o animal comia umas folhas de milho sêco (canas, como lhe chamavam na minha aldeia) que o meu avô tinha levado entaladas na albarda do animal. E a mim, deu-me tambem qualquer coisa para comer que minha avó me tinha mandado. Ai
nda me lembro… que ficamos num pequeno talhão de terra de cultivo, á beira do Ribeiro, que hoje sei é o do Braçal, que nasce a centenas de metros na serra que chamamos Penesinhos. Hoje… percorrendo o mesmo trajecto (paraíso) de á 55 anos, o que fiz á alguns anos atraz, o caminho hoje é rua, é diferente; desapareceram os vestígios dos animais de carga e os rodados dos carros de bois, as casas hoje podem-se chamar casas, (não casebres) mais bonitas e confortáveis, mas as aves… essas desapareceram; o seu cantar foi substituído pelo som da rádio e as terras que outrora estavam bem cultivadas, qual jardim do paraíso estão abandonadas; e na montanha, o pinhal oferece uma imagem desoladora; paisagem de terra queimada, (dos fogos do verão). O paraíso da minha infancia, da memória a desabrochar para o mundo, como aquela manhã de Primavera…desapareceram… mas enquanto eu viver, ainda me lembro… Á coisas que nunca esquecem… e outras por serem das primeiras que o nosso cérebro guarda, quando começamos a tomar conciencia do que existe á nossa beira, ficam-nos gravadas para sempre nessa calculadora maravilhosa a que chamamos memória vão e vêm à nossa mente para o resto da nossa vida. Esta é uma delas.
Ainda me lembro… nas horas de nostálgia… cá longe… na emigração.
(Foto cedida pelo site do Peso ) B.Batista. 08/1978
II
~~~Ainda me Lembro!!! – 1947/48 ~~~
~~~ Os anos do pós guerra ~~~
Nascido no Peso em 1939, ano em que começou a II guerra mundial (39/45) escusado será dizer que foram anos difíceis para toda a Europa. Ainda me lembro que o Peso, era uma aldeia como tantas outras de uma fisionomia rural e agricola, mas com a particularidade de estar ligada á industria de lanificios através da tecelagem, sendo esta industria uma das bases de sustento de muitas famílias.
Não me lembro muito bem das grandes vicissitudes da mesma, no que toca á falta de básicos géneros alimentícios, como pão o e mercearias, devido ao facto de meus pais e avós terem mercearia e padaria. Mas ainda me lembro- de vêr filas de pessoas no pátio da padaria de meus avós paternos, à espera para lhe venderem pão, o que era feito através de um postigo com grades. Sei hoje que muitas dessas pessoas vinham de longe, das terras do sul do Zêzere como Barco, Paul, Ourondo e até de Silvares, S. Martinho e Barroca do Zezere .
Chegavam durante a noite, para de manhã poderem apanharo precioso pão, que alguns iam vender depois nas suas terras a preço mais elevado.
-Deste facto tive conhecimento já aqui em Vancouver, por pessoas que partriciparam nesta “realidade”que afinal iam ao Peso buscar pão e depois vim a saber que era a padaria de meus avós.-
Foram tempos de dificuldades que se viviam nesta época, nestas aldeias rurais das Beiras e não só, dificuldades estas que se prolongaram por mais de duas décadas,até que surgiu a emigração para França, nos pricípios de 1960/65. Havia racionamento para muitos géneros de consumo, como pão, açucar, arrôs, sabão, etc e lembro-me de meu pai, me mandar cortar cupons de cadenetas que eram distribuidas pela então, IGA (Intendencia Geral de Abastecimentos) todos os meses aos comerciantes. Esta entidade estatal regulava os abastecimentos de géneros de consumo básico ás populações.
Assim conforme o numero de pessoas do agregado familiar,era-lhes atribuído uma certa quantidade desses produtos,que os comerciantes iam levantar aos armazens da sede de concelho. Algumas dessas famílias com maior numero de filhos e que portanto tinham acesso a mais uns kilos desses produtos, por veses por falta de dinheiro,vendiam esses géneros a outras pessoas que melhor os podiam comprar.
Por alturas de 1955/60 as Paróquias recebiam igualmente farinha americana e canadiana, doada pela “Caritas”uma organização internacional de apoio aos países pobres,(sim Portugal estava classificado como tal) para ser distribuida pelas pessoas com mais necessidade nas aldeias, o que nem sempre acontecia. Parte dessa farinha era vendida ás padarias,-desculpem esta revelação, mas isto faz parte da história do nosso povo- porque era farinha “especial” e bastavam uns 10 a 15 kgs num saco de 75 kgs para se fazer um pão de muito melhor qualidade e apresentação, já que a farinha fornecida opficialmente ás padarias era uma mistura de trigo, fava e feijão frade (pequeno). Quem se lembra ainda dos famosos pães de testa (5$00).?
Havia no Peso duas padarias importantes para a área do “Rio”:
A de meus avós, Belarmino Batista & filhos.
E a dos Irmãos Pires (Abílio, Angelo e Jose.)
Nesta época de falta de géneros alimentícios, ter uma mercearia ou principalmente padaria era uma vantagem económica que não se podia ignorar. Assim estas duas famílias tentaram expandir e com certo exito, esta oportunidade.
Assim se adquiriram os primeiros automoveis para o Peso, para a distribuição do pão pelas terras vizinhas, que até então era feita com carroças puchadas por cavalos e machos. Em muitas aldeias não havia padarias, ou se havia, eram apenas exploradas nas proprias aldeias. Não nos esqueçamos que nesta época as aldeias eram mais povoadas do que actualmente. Embora vivendo-se com dificuldades, havia nelas “‘vida”, comparado com esse tempo, hoje são quase aldeias “fantasmas”.
No caso dos Irmãos Pires, passado algum tempo adquiriram tambem um automovel, (genero de furgoneta) para o mesmo efeito. Lembro-me que tinha os lados de madeira ou imitação e já mais moderno. Não me lembro da marca. (Estas sâo fotos dos modelos dos carros referidos)
O pão desta época eram na maioria, unidades de 1 kg, kilo e meio e do tamanho de um prato. Usava-se o pão de testa, o centeio e o pão de milho, (mais conhecido por brôa) que era vendido a 5$00 e igualmente o de 1kg a $3.30. Menos usado era o pão “fino” assim lhe chamavam, que consistia de regueifas a 4$80, carcaças ou pão de quartos 1$60 e os celebres papossêcos a $0.40 centavos, que chegaram aos nossos dias.
Esse pão era distribuido pelas aldeias do “rio”como Coutada, Barco, Paul, Ourondo,Casegas, Sobral e para o lado norte, Erada, Hunhais , Cortes e até á isolada Bouça, onde não havia estrada e era enviado um robusto cavalo pelo comerciante, que transportava 3 cestos de pão, para ser revendido no unico estabelecimento da povoação. Alguns anos depois tentava-se a zona industrial do Tortosendo, Covilhã e as inumeras quintas ao redór. Assim a industria de panificação do Peso era conhecida por toda a Cova da Beira.
Gerou-se até como é obvio, uma certa animosidade entre as duas famílas, ao interferirem nas zonas económicas uma da outra. Era a luta pela sobrevivência.

Primeiro automóvel do Peso, cerca de 1948- <Nash> ~~~ Segundo automóvel do Peso, década de 1950 - Irmâos Pires
Belarmino Batista & Filhos ( Estes sâo exemplos dos modelos)
Existiam ainda, que eu me lembre, dois fornos de coser pão para o povo, o da Ti Ana Poiares, como era conhecido, mas pertença da familia de João Luis de Sousa e o outro... nao me recordo (?) Funcionavan no sistema de “maquía”. Maquía era a forma de pagamento das pessoas pelos serviços prestados. Assim pagava-se o uso do forno com o mesmo pão, consoante a quantidade de pão cosido. Esse pão era depois vendido para a realização de fundos monetarios para a pessoa que explorava o forno.
Pagava-se uma "cóta" com produtos da terra, como milho e azeite... ao barbeiro, aos barqueiros para a travessia do Zezere.
O mesmo acontecia com o Doutor. (vejam a introdução nos meus escritos de”OSalto”). O pagamento da côngrua ao Padre, era igualmente feito com os mesmos produtos. O dinheiro era um “bem” secundário, que muitos possuiam em mínima quantidade.
Já que falei na ti Ana Poiares, estou-me a lembrar do seu filho Amandio, que trabalhava no mesmo forno e conseguia equilibrar um tabuleiro de pão á cabeça, coisa que só as mulheres (algumas) faziam. Este dedicava-se aos domingos a engraxar sapatos, levava 1.50 centavos (15 tostoes) e nisto era um bom profissional. Posso dizer que com a sua ocupação contribuia para que o Peso fosse uma aldeia onde havia um pouco de tudo. Muitos rapazes dos Vales, Pesinho e Coutada, vinham ao Peso aos domingos para engraxar os sapatos, por não haver nas suas terras este serviço. Nestes tempos em que a estrada não era alcatroada e os caminhos todos poeirentos no verão e lamacentos no inverno, andava-se muito a pé. A primeira e unica camioneta de carreira que fazia o trajecto entre o Tortosendo e o Barco, começou creio nos anos 60, saia do Barco pela manhã antes das 7 horas e vinha no sentido inversso pelas 6 horas da tarde.
Ainda me Lembro!!!
...das tradições da tecelagem no Peso.
Segundo houvia dizer aos meus avós desde tempos antigos que havia no Peso quem se dedica-se á tecelagem de cobertores, lençois de linho e mantas de ambito artesanal.
Com o advento das fabricas de lanifícios no Tortosendo, (a Covilhã já ficava longe…naquela época) as gentes da aldeia começaram a trabalhar na tecelagem , para essas mesmas fabricas, indo buscar as matérias primas necessárias para depois fazerem o trabalho em casa . Novos teares, (só de um pano) assim lhe chamavam aos teares maiores, foram adquiridos por muitas pessoas da aldeia e assim começava uma nova éra para muitos, uma nova vida que lhes garantia o sustento da família.
Assim eram trazidas grandes meadas de fio que depois eram estendidas num grande estendedouro, (ordedouro assim lhe chamavam, a grandes barras de ferro, não tão grandes no tamanho, das balizas do futebol ) que iam desde a estrada do Cabouco até ao cimo do Carrascal, ao longo do extremo poente da escola da D.a Blandina, assim era conhecida a mesma.
Essas grandes meadas de fio eram (julgo ) transformadas em mais pequenas para serem passadas numa dobadeira para depois serem transferidas para um “fuso” que seria depois usado na lançadeira do tear . Estes trabalhos secundarios eram quase exclusivos das mulheres. Depois do trabalho estar completo o tecido, era levado á fabrica para receberem o pagamento e trazer outro trabalho, (se o houvesse) . Quem passá-se pelas ruas da aldeia, poderia houvir o matraquear dos teares a qualquer hora do dia ou da noite. Existia um barracão, assim se chamava uma série de palheiros que iam desde a casa actual do Sr.João Sardinha até á area onde estão os tanques, lavadouros publicos e aí estavam instalados uns quantos teares, 4 ou 5 não posso precisar onde havia sempre gente a trabalhar até altas horas da noite e manhã cêdo.
Era esta a vida de muitos habitantes do Peso, até princípios da década de 1960.
Devo salientar que estas mercadorias eram transportadas ás costas ou em jumentos, (o Ti Zé Aires tinha um burro, rijo e dócil que era nessa altura como que o táxi da aldeia)- pelo caminho da “Serra”que seguia do cimo dos Vales do Rio, até ao fundo do Cabeço do Tortosendo. Estes teares, instrumentos de trabalho, eram registados num Departamento Governamental, cujo nome não me lembro e lhes garantia um alvará que mais tarde foram valorizados, pois ao fazer-se a reconverssão da industria de lanifícios, de manual para automatica, eram necessário aos industriais de lanificios, obter três alvarás de teares manuais para um tear electrico. E assim foram adquiridos muitos, ou quase todos, a um preço que ia desde os 12 mil aos 20 mil escudos , conforme a procura; uma pequena fortuna nessa época.
Depois começou a ser ”descoberta”a emigração para França e igualmente com a reconverção dos teares manuais para eléctricos, (automáticos como lhe chamavam ) e assim muitos começaram a deixar a industria de tecelagem manual. Alguns foram aprender a trabalhar com os novos teares e arranjaram trabalho no Tortosendo e Covilhã, para onde iam todos os dias de bicicleta. Eram notórios os grupos de tecelões que especialmente do Peso, Coutada e Dominguiso, enchiam a estrada, (ainda de maquedame) e se houviam á distancia, falando uns para os outros. Fazendo este trajecto, infelizmente 2 conterrãneos nossos encontraram a morte na estrada.
Com esta mudança para o progresso iria acabar uma industria para as aldeias do Rio e não só, pois outras limítrofes como o Teixoso, Aldeia do Carvalho, Sarzedo, Ferro, Peraboa etc, havia muita gente a trabalhar nesta industria. No caso do Peso, houve outra reconversão: os que não seguiram para França tão depressa, ou já pela idade mais avançada, lançaram mão á tecelagem de mantas de trapos. O Peso chegou a ser a terra com mais gente a trabalhar neste sector artesanal em todo o distrito, ou até talvez em todo o país.
Senão vejamos; a area de domínio das gentes do Peso extendi-se a todo o distrito de Castelo Branco, área de Alcains, a partes do da Guarda, área do Sabugal e Coimbra, como Barroca do Zezere, Vasco Esteves, Loriga, etc. Eu próprio como proprietário do automovel de aluguer (taxi) da aldeia na altura, percorri todos estes percursos no transporte dessas mantas em toda a década de 1960 e at á minha emigração em fins de 1973.
De salientar que cada pessoa tinha a suas localidades, que na maioria dos casos era respeitada, não fazendo concorrencia uns aos outros.
Com o envelhecimento dos mesmos e a emigração para França, esta actividade foi-se desvanecendo até á sua extinção. Assim se vira mais uma pagina da historia do Peso. É pena que não tivesse ficado um pequeno museu com todos os artefactos desta industria,(tecelagem)para que as gerações vindouras pudessem apreciar.
IV
~~~Ainda me Lembro!!!~~~
Por alturas de 1958/59, (?) chegou a electricidade ás aldeias do Rio, desde o Dominguiso ao Barco e isto foi certamente um dos grandes benefícios desta época.
Este melhoramento veio proporcionar como é obvio um substancial desenvolvimeno ás aldeias e uma melhoria nas condições de vida daqueles que podiam instalar a luz electrica em casa. Para esses as candeias de azeite ou os candêiros a petroleo, poderiam já ser coisas do passado. Possibilitou igualmente a mecanisação da industria de panificação na aldeia.
Houvir-se a radio era já possível, pagando uma licença anual de 100$00 escudos á então Emissora Nacional. E passados poucos meses, eis que apareceram mesmo os fiscais da Emissora entrando nos estabelecimentos e apanhando os que não tinham essa licença, creio que nehum a tinha e lembro-me que meu pai foi um dos apanhados.Com a radio, nas tabernas já poderia haver mais divertimento e informação, tal como o relato dos jogos de futebol.
Lembro-me igualmente que nomeadamente as mulheres, se reuniam em frente da telefonia para houvirem o” romance”.As tabernas iam-se transformando em cafés (onde café não havia) ficariam a ser tabernas mais civilizadas, pelo menos com cadeiras e mesas, em vês dos tradicionais bancos quadrados de madeira.
O primeiro verdadeiro café a ser aberto no Peso, foi o dos irmãos Arnaldo e Antonio Proença, isto já depois da vinda da Televisão. Todas as noites era casa cheia, principalmente para a noite de teatro. As emissões começavam da parte da tarde acabavam á volta das 11 da noite.
Uma das bebidas mais populares na altura, para os que não bebiam vinho, era uma mistura de gasosa com café (de cevada) que fazia uma espuma mais parecida com cerveja preta. Havia um nome próprio para esta bebida , que não me recordo.
Ainda me lembro que a primeira televisão no Peso, foi dos Irmãos Pires e nos primeiros dias foi posta na varanda do seu estabelecimento no Largo do Chafariz, onde á noite um arraial de gente se reunia para ver a TV.
Queria recuar um pouco no tempo, para antes da vinda da electricidade.
As primeiras telefonias existentes no Peso, foram as do Sr. Angelo Morão no Largo do Chafariz, que era proprietário de um dos melhores estabelecimentos de mercearias, retrozaria e fancaria de todas as aldeias do Rio. Aqui vinham muitas pessoas das aldeias vizinhas, abastecerem-se para não irem ao Tortosendo ou Fundão. A outra casa com telefonia era de meu avô, Belarmino Batista..
Estas eram as unicas casas que tinham electricidade fornecida por um gerador movido a vento e instalado no telhado. As pessoas chamam-lhe “caravelas”.
Ainda me lembro que as pessoas no dia das celebrações de N.Sra de Fátima, no 13 de Maio, enchiam a sala da casa de meu avô, para houvirem as reportagens das mesmas. Lembro-me igualmente quando da morte do então Presidente da Republica, Marechal Carmona, se encher a casa de gente, onde eu estava tambem e ver as pessoas chorar com o relato emocionante e sentimental dado pelo incomparável locutor de então, Artur Agostinho. Recordo-me bem deste acontecimento, por ter chorado tambem.
Lembro-me igualmente de ir houvir, muitas veses sózinho, por alturas da Pascoa, os relatos do hoquei em patins para o campeonato do mundo, transmitidos de Geneve ou Montreax na Suiça. Gostava ainda de houvir o programa dos Companheiros da Alegria no Radio Club Português todas as noites, espectaculo musical que na década de 1950/60, percorria Portugal de lés a lés. Igrejas Caeiro e Elvira Velez eram os productores deste espectaculo, que revelava muitos dos bons artistas/cantores portugueses da época.
Isto só era possível graças aos geradores a vento.
V
Ainda me lembro !
~ As cheias do Zezere ~
Um pouco de historia sobre o Rio e o “barco” .
Devo sublinhar que nesta época existia no Peso, assim como noutras povoações vizinhas como Alcaria, Barco,Silvares,Barroca do Zezere etc, uma embarcação que ligava as duas margens do Rio Zezere ás povoaçoes do outro lado, neste caso ao Pesinho, para transporte de pessoas, animais e mercadorias. Quando chegava a Primavera e o caudal do Zezere era mais diminuto, eram postas umas tábuas, (passadeiras) no lugar onde hoje se situa a Ponte, que em muitas ocasiões ainda eram levadas por alguma cheia imprevista que ocorre-se, No caso do Peso, esse barco e o direito de exploração pertencia ao “ Passal” uma intituição ligada á Igreja .
Assim era “arrematado” o barco, nome dado ao acto de arrematação para a exploração do mesmo durante um ano. Dos grupos interessados que houvesse, a exploração seria dada a quem mais oferecesse. Como havia e há uma grande afinidade familiar e social entre os habitantes do Peso e Pesinho e a necessidade de ir ao Mercado e Feiras do Fundão , vender ou comprar animais como suínos, jumentos gado caprino e até juntas de bois, alem de se abastecerm de outros productos que só encontravm no Fundão, como árvores , couves , sementes, etc, quase toda a gente pagava essa avença aos Barqueiros, para poderem utilizar o barco. (Como tudo se modificou em uma ou duas décadas!)
Depois pela época das colheitas esse homens que tinham ficado com a explorção do barco, iam de porta em porta, no Peso e no Pesinho, cobrar uma certa quantidade de milho, creio que um alqueire, medida de (20 litros) , ou mais tarde , azeite, quem não tivesse milho, para assim poder usar o barco quando fosse necessário.
Quando aparecia alguem de outra terra que precisa-se usar o barco, pagavam uma quantia, á descrição.
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----Voltando ao título, sei que era dia e Natal, teria eu os meus 10 a 12 anos tinha chovido bastante toda essa semana e o Rio começava a transbordar para os “lodeiros” nome dado, ás terras de cultivo adjacentes ao Rio.
Como era dia de Natal havia gente do Pesinho e Peso em ambas as partes do Rio e pela tarde,depois das visitas familiares, seria o regresso ás suas terras. Entretanto como era habito muitas dessas pessoas juntavam-se na zona central da povoação, onde existiam as tabernas, unicos lugares onde as pessoas da aldeia congregavam para socializar. Assim ao fim da tarde era frequente e considerado normal, alguns sentiam os efeitos do alcool, demonstrando-o nas mais diverssas formas. Os“barqueiros” eram normalmente bem tratados neste sentido e nunca lhes faltava a bebida oferecida pelos utentes do barco, pois era conveniente ter sempre os “barqueiros ‘ na mão par se poder atravessar o rio quando necessitassem e sem muita demora.
A dose habitual para estes homens era os “meios/quartilhos” nome dado aos copos de ¼ de litro. Se não podessem beber na altura a bebida ficava paga para ser bebida noutra oportunidade. Consequentemente ao fim da tarde ja teriam uma dose considerável de meios –quartilhos, principalmente aos fins de semana e dias de mercado no Fundão, (segundas feiras).
Mas entretanto o caudal do Zezere devido ás chuvas que tinham caído durante a semana quase sem cessar, continuava a aumentar considerávelmente, quase sem as pessoas darem por isso. E ao caír da tarde quando queriam regressar ás suas cassas procuravam os “barqueiros” para a passagem ao outro lado. Entretanto estes, já tinham mudado o barco do paredão das “tábuas”, onde normalmente estava ancorado, para o paredão da “pontaria” mais acima, mas a uns 100 a 150 metros desviado do leito do rio amarrdo a uma arvore , pois junto ao leito tornava-se perigoso, por o paredão começar a estar coberto de agua. Entretanto durante a manha já alguem tinha gritado do lado do Pesinho. Hó... Barqueiro! Era assim que se comunicava oralmente duma margem para a outra , não havia telefone. Ainda me lemnbro..., ao fim da tarde fui a casa dos meus avós maternos (no Adro da Igreja) e daí pude ver com mais precisão toda a extensão da cheia. Ainda me lembro perfeitamente de todo aquele barulho arrasador (soada) como lhe chamavam que as aguas do Zezere faziam naquela situação de cheia. As mesmas tinham chegado à estrada do Peso e do outro lado à fonte do Pesinho que estava parcialmente submersa. Aliás foi dessa visão da cheia e desse zuzurrar assustador e defiante do Zezere que, ainda jovem, me ficaram na memória as bases para esta crónica.
Com o movimento habitual desta data festiva, nem barqueiros nem passageiros utentes do barco, se davam conta do perigo que poderia resultar o atravessamento do Zezere. Avaliando as circunstancias hoje, confeço que era preciso ter coragem ...(ou efeitos de alguns copos) para se aproximarem do leito do Rio naquelas condições.
Assim os barqueiros Joaquim Augusto e Jose Cortiça, este ultimo natural do Barco mas casado no Peso, apelido este de Cortica , vinha-lhe do facto de ser destemido para o rio . Como a cortiça nunca ia ao fundo, daí o nome porque era conhecido.
Assim lá foram esses 4 ou 5 homens, ignorando todos os perigos, tentar a travessia do Zezere. Lembro-me de algumas pessoas se concentrarem em lugares para observar esta tentativa de travessia do Rio , pois obviamente receavam o pior. E atravessia fez-se da seguinte maneira. Começaram por levar o barco ao longo do paredão, para se aproximarem do leito do rio . Aqui trocaram as váras, normalmente usadas para chegarem ao fundo do rio, pelos remos, pois as váras, que teriam aproximadamente uns 5 metros não chegavam ao fundo do leito. Por aqui poderemos avaliar a fundura que o Rio levava. Puchando o barco para cima o mais possivel, foram deixando descair o mesmo, ao mesmo tempo remando contra a corrente e tentando segurar a prôa (frente) do barco sempre para nascente, assim o barco foi puchado para a margem do Pesinho, até que se aproximou das margens da outra banda, mas vindo parár cá para abaixo mesmo frente ao sitio dos Barros, levando-o em seguida pelos lodeiros até mesmo ao fundo do Pesinho. O barco não regresou ao Peso esse dia, mas sim no dia seguinte com as aguas já a baixar.
O Zezere tinha sido vencido mais uma vez por este punhado de homens destemidos e habituados aos perigos do mesmo..
Quero recordar uma nota trágica, em que o Zezere nem sempre era transposto com segurança.. Foi por alturas de 1958/59 em que na travessia de Alcaria para o Dominguiso, numa segunda feira de Inverno, já noite cerrada , um grupo de jovens raparigas dos Vales do Rio, que trabalhavam numa fabrica de colchões em Alcaria, ao regressarem a casa depois de um dia de trabalho, ao chegarem à margem direita o barco foi de embater um tronco de arvore parcialmente coberto de agua e com o balanço do choque, duas jovens foram cuspidas para as aguas e nunca mais foram vistas. A tragédia tinha acontecido e o povo dos Vales do Rio correu aos gritos com lampeões e outras luzes que puderam arranjar e indiferente à chuva que caía copiosamente e tinha caido todo o dia, dirigiu-se para as margens do rio sem saber exactamente o que tinha acontecido e quem tinha desaparecido. Ja era tarde de mais para que alguma ajuda fosse util., pois as duas jovens tiham desaparecido, para serem encontradas, uma, dias depois para os lados das margens da Coutada e a outra algumas semanas mais tarde, cá para as bandas de Dornelas do Zezere.
Eu lembro-me... eu estava nos Vales do Rio, conhecia bem estas jovens que o Zezere roubou tão tragicamente na sua juventude e assisti a estes momentos trágicos das familias a quem estes ente queridos tinham sido tragados pelas aguas impetuosas do Zezere. Este Rio que trazia riqueza a estes povos pelas terras que banhava, trouxe tambem a tragédia. Aqui a refiro para que não cáia no esquecimento das gerações viventes.
Nomes dos Barqueiros mais conhecidos. Joaquim Augusto , Jose Cortiça, Antonio Pereira, seu filho Joaquim Pereira, Jose Travanca, João ...? (homem da Ti Patrocinia Madeira)
Peço desculpa em mencionar alguns nomes pelos apelidos (alcunhos) pois não sei outros.
A Feira de S. Miguel nas Décadas 1940/50
Encontro com o Zêzere
desde que emigrei, encontrei o Rio Zêzere mais ou menos como quando o deixei em 1973.
Porem quando da minha segunda visita em 1985, o meu encontro com o nosso Zêzere,
foi para mim chocante, ao verificar as consequencias que a extração de inertes tinham feito.
O leito do rio da minha infancia estava desfigurado;
O cascalhal do Verde tinha desaparecido, do areal dos Barros, nem vestígios,
o que me entristeceu bastante. Parece-me que a nostálgia da ausência,
leva-nos a gostar mais daquilo que deixamos e a sermos mais sensíveis às coisas,
do que os próprios residentes.
